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CANAIS COMUNICANTES:
Cena
Lusófona
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Viagem
ao Centro do Círculo
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Promovido
pela Cena Lusófona em parceria com A Escola da Noite (Coimbra), Cia. De
Teatro de Braga (Braga) e Teatro Vila Velha (Salvador), dirigido pelo
encenador alemão Stephan Stroux, o projeto "Viagem ao Centro do Círculo"
se dividia originalmente em três fases distintas. Na primeira, seriam
realizados workshops nos diferentes países de Língua Oficial
Portuguesa, com objetivos de realizar um levantamento cultural desses países
através dos atores, coletar material de campo e selecionar atores para
a realização de um espetáculo que refletisse a diversidade, os
contrastes e as semelhanças presentes no universo lusófono. Terminada
a primeira fase, estaria formada uma companhia com atores dos países
envolvidos. Na Segunda fase, essa companhia trabalharia em cada país
com o grupo participante do workshop, possibilitando uma troca de experiências
e o reconhecimento mútuo. Nesse trabalho, o grupo local criaria um
espetáculo e os componentes da companhia recolheriam subsídios para o
espetáculo final, Quem Come Quem.
A terceira fase seria a criação do espetáculo em Portugal.
Cumpriu-se
integralmente a primeira fase, com workshops em Salvador (Bahia,
Brasil), Maputo (Moçambique), Luanda (Angola), Mindelo (Cabo Verde), São
Paulo (Brasil) e Braga (Portugal). Não se fez workshop na Guiné
Bissau, que estava em guerra, nem em São Tomé e Príncipe. Porém,
esses países estariam (como de fato estão) representados no espetáculo
final por atores que já haviam participado de trabalhos anteriores
promovidos pela Cena Lusófona. Por outro lado, atendendo a diversidade
cultural do Brasil, aqui foram realizados workshops em duas regiões
distintas. O projeto recebeu, nessa fase, o apoio de instituições como
a Escola Nacional de Artes Visuais de Maputo, o Teatro Elinga, de
Luanda, o Mindelact, de Cabo Verde, o Centro Cultural São Paulo, no
Brasil.
Infelizmente
faltaram recursos financeiros para a segunda fase, que teve de ser
cancelada. O projeto sofreu adaptações e em abril deste ano a
companhia reuniu-se em Portugal, dando início à criação do espetáculo
Quem Come Quem, que
estreou no Teatro Gil Vicente, Coimbra, no dia 5 de julho de 2000.
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Os
Workshops
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No
decorrer dos seis dias do workshop os atores faziam longa peregrinação
ao interior da memória pessoal. E de cada "incursão para dentro de
si mesmo" surgiam relatos de fatos reais, depoimentos, evocações,
uma fartura de material. Assim, estabeleciam-se pontes entre a memória
e a imaginação. E na imaginação engendrava-se a ficção dramática,
que se materializava em improvisações muitas vezes brilhantes,
pequenas e preciosas peças curtas que só existiram naquele momento.
Em
todos os lugares onde se realizaram os trabalhos, independentemente do
grau de evolução da cultura dramática local, constatava-se igual reação
do grupo participante em face dos estímulos recebidos. Aos poucos, iam
todos mergulhando na sua história pessoal e através dela trazendo ao
verbo ou à ação lampejos da alma coletiva.
Com
extraordinária habilidade e talento, Stephan Stroux estimulava os
atores a irem mais longe na memória e na transmutação de
lembranças em cenas.
O
processo colocava um tema por dia. Assim, o primeiro dia era da criança;
o segundo, da nostalgia da Terra; o terceiro, da Água (dia da
fertilidade, homem e mulher); o quarto, do Fogo (dia da guerra e da
sobrevivência); o quinto, do Ar (dia da religião e dos ancestrais
);
por fim, o sexto dia, era o da comida, onde se externava a idéia
antropofágica do projeto. Essa divisão temática tinha sua ordem
alterada e ajustada às condições locais do trabalho, mas permanecia
inalterada na essência.
Alguns
objetos foram também utilizados na linha de força: cada participante
trazia uma panela usada, dentro da qual colocava terra; uma bandeira de
tecido branco surgia no início do dia do Fogo, nela cada ator escrevia
algo que gostaria de ver exterminado (violência, guerra, prostituição
infantil, fome e hipocrisia freqüentaram as bandeiras em todos os
lugares), no final do dia queimava-se a bandeira entre cantos e danças;
a comida, no último dia, era oferecida por um ator a outro, escolhido
em sorteio secreto, com uma proposta dramática. Havia a câmara fotográfica
entregue aos atores para que fotografassem aspectos que lhes
interessavam particularmente da sua paisagem cotidiana, voltando ou
atualizando a questão dos espaços. Esse conjunto de elementos
concretos não só apoiavam o mergulho na memória como se transformavam
os objetos, transcendendo sua condição material, espiritualizando-se.
A
panela com terra, sobretudo, ocupa lugar de grande importância no
processo. Está presente no espaço desde o segundo até o último dia
sendo constantemente manipulada. Seus significados materiais e simbólicos
vão-se desdobrando ao longo dos trabalhos. Nela estão implícitas a
fertilidade e a transformação da matéria no movimento da vida. E é
essa, justamente, a síntese ideológica do processo.
As
propostas temáticas e os objetos utilizados contextualizavam a ação
dos atores, conduzindo-os ao reagrupamento de elementos essenciais da
sua cultura, que terminavam se manifestando nos relatos sobre fatos
vividos, nos depoimentos sobre questões pessoais e familiares ou nas
improvisações. Desse modo, os atores produziam ao longo do workshop um
quadro eloqüente da cultura viva do seu país, onde pulsavam códigos
morais e comportamentais carregados de tradição.
(Sebastião Milaré
- trecho de artigo
escrito para a revista Setepalcos
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Salvador

Maputo

Luanda

Mindelo

São
Paulo

Braga
Fotos:
Beatrice Babin |
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