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Renato Vianna
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O Teatro
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1918/38

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CANAIS COMUNICANTES: Cena Lusófona
 
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Viagem ao Centro do Círculo

   


Promovido pela Cena Lusófona em parceria com A Escola da Noite (Coimbra), Cia. De Teatro de Braga (Braga) e Teatro Vila Velha (Salvador), dirigido pelo encenador alemão Stephan Stroux, o projeto "Viagem ao Centro do Círculo" se dividia originalmente em três fases distintas. Na primeira, seriam realizados workshops nos diferentes países de Língua Oficial Portuguesa, com objetivos de realizar um levantamento cultural desses países através dos atores, coletar material de campo e selecionar atores para a realização de um espetáculo que refletisse a diversidade, os contrastes e as semelhanças presentes no universo lusófono. Terminada a primeira fase, estaria formada uma companhia com atores dos países envolvidos. Na Segunda fase, essa companhia trabalharia em cada país com o grupo participante do workshop, possibilitando uma troca de experiências e o reconhecimento mútuo. Nesse trabalho, o grupo local criaria um espetáculo e os componentes da companhia recolheriam subsídios para o espetáculo final,
Quem Come Quem. A terceira fase seria a criação do espetáculo em Portugal.

Cumpriu-se integralmente a primeira fase, com workshops em Salvador (Bahia, Brasil), Maputo (Moçambique), Luanda (Angola), Mindelo (Cabo Verde), São Paulo (Brasil) e Braga (Portugal). Não se fez workshop na Guiné Bissau, que estava em guerra, nem em São Tomé e Príncipe. Porém, esses países estariam (como de fato estão) representados no espetáculo final por atores que já haviam participado de trabalhos anteriores promovidos pela Cena Lusófona. Por outro lado, atendendo a diversidade cultural do Brasil, aqui foram realizados workshops em duas regiões distintas. O projeto recebeu, nessa fase, o apoio de instituições como a Escola Nacional de Artes Visuais de Maputo, o Teatro Elinga, de Luanda, o Mindelact, de Cabo Verde, o Centro Cultural São Paulo, no Brasil.

Infelizmente faltaram recursos financeiros para a segunda fase, que teve de ser cancelada. O projeto sofreu adaptações e em abril deste ano a companhia reuniu-se em Portugal, dando início à criação do espetáculo Quem Come Quem, que estreou no Teatro Gil Vicente, Coimbra, no dia 5 de julho de 2000.

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Os Workshops

 
 

 

No decorrer dos seis dias do workshop os atores faziam longa peregrinação ao interior da memória pessoal. E de cada "incursão para dentro de si mesmo" surgiam relatos de fatos reais, depoimentos, evocações, uma fartura de material. Assim, estabeleciam-se pontes entre a memória e a imaginação. E na imaginação engendrava-se a ficção dramática, que se materializava em improvisações muitas vezes brilhantes, pequenas e preciosas peças curtas que só existiram naquele momento.

Em todos os lugares onde se realizaram os trabalhos, independentemente do grau de evolução da cultura dramática local, constatava-se igual reação do grupo participante em face dos estímulos recebidos. Aos poucos, iam todos mergulhando na sua história pessoal e através dela trazendo ao verbo ou à ação lampejos da alma coletiva.

Com extraordinária habilidade e talento, Stephan Stroux estimulava os atores a irem mais longe na memória e na transmutação de lembranças em cenas.

O processo colocava um tema por dia. Assim, o primeiro dia era da criança; o segundo, da nostalgia da Terra; o terceiro, da Água (dia da fertilidade, homem e mulher); o quarto, do Fogo (dia da guerra e da sobrevivência); o quinto, do Ar (dia da religião e dos ancestrais ); por fim, o sexto dia, era o da comida, onde se externava a idéia antropofágica do projeto. Essa divisão temática tinha sua ordem alterada e ajustada às condições locais do trabalho, mas permanecia inalterada na essência.

Alguns objetos foram também utilizados na linha de força: cada participante trazia uma panela usada, dentro da qual colocava terra; uma bandeira de tecido branco surgia no início do dia do Fogo, nela cada ator escrevia algo que gostaria de ver exterminado (violência, guerra, prostituição infantil, fome e hipocrisia freqüentaram as bandeiras em todos os lugares), no final do dia queimava-se a bandeira entre cantos e danças; a comida, no último dia, era oferecida por um ator a outro, escolhido em sorteio secreto, com uma proposta dramática. Havia a câmara fotográfica entregue aos atores para que fotografassem aspectos que lhes interessavam particularmente da sua paisagem cotidiana, voltando ou atualizando a questão dos espaços. Esse conjunto de elementos concretos não só apoiavam o mergulho na memória como se transformavam os objetos, transcendendo sua condição material, espiritualizando-se.

A panela com terra, sobretudo, ocupa lugar de grande importância no processo. Está presente no espaço desde o segundo até o último dia sendo constantemente manipulada. Seus significados materiais e simbólicos vão-se desdobrando ao longo dos trabalhos. Nela estão implícitas a fertilidade e a transformação da matéria no movimento da vida. E é essa, justamente, a síntese ideológica do processo.

As propostas temáticas e os objetos utilizados contextualizavam a ação dos atores, conduzindo-os ao reagrupamento de elementos essenciais da sua cultura, que terminavam se manifestando nos relatos sobre fatos vividos, nos depoimentos sobre questões pessoais e familiares ou nas improvisações. Desse modo, os atores produziam ao longo do workshop um quadro eloqüente da cultura viva do seu país, onde pulsavam códigos morais e comportamentais carregados de tradição.

(Sebastião Milaré - trecho de artigo escrito para a revista Setepalcos )




Salvador

 


Maputo

 


Luanda

 


Mindelo

 


São Paulo

 


Braga

 

Fotos: Beatrice Babin


 

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