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 Crítica > Crítica > Opinião crítica de Sebastião Milaré.

FALSO ESPETÁCULO


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Será a vida um "falso espetáculo"? Este pode ser um modo de ver a manifestação da Cia. Vazia.
“Uma festa à incerteza”, como afirma sua criadora Elisa Ohtake, ou o elogio à precariedade, “Falso Espetáculo” constitui precioso exemplo das possibilidades que se abrem para as artes cênicas nesta época pós-moderna. Quando se rompe com o iluminismo e com o determinismo cartesiano é possível encarar sem vergonha intelectual ou temores existenciais a nossa própria falência cotidiana. Somos falíveis, graças a Deus! É o que parecem apregoar os três intérpretes de “Falso Espetáculo”, com o prazer quase sensual que lhes dá a constatação.

Já não é necessário superar todas as limitações físicas e intelectuais para expressar minha alegria ou meus medos, meus anseios ou minhas frustrações, ou qualquer outra atitude representativa de sentimentos inerentes ao Ser. O “mundo dado” não encerra todas as possibilidades. As habilidades podem ser verdadeiras ou fingidas e nem vem ao caso saber se são assim ou assado, por que às vezes o importante não é a excelência da performance, ou a coisa em si, mas a representação da coisa. Inaugura-se, desse modo, o direito de cantar, ainda que desafinado, de dançar balé, ainda que recalcitrante e trêmulo.

Será um olhar superficial o de quem confundir essa manifestação com o velho conceito da caricatura ou da sátira, que expunha a inabilidade do sujeito para determinada performance com o objetivo de mostrar o ridículo e arrancar a gargalhada fácil da platéia, porque o ridículo humano sempre foi considerado desprezível e risível. Essas sátiras estabelecem cumplicidade entre os atores e os espectadores para rir do ridículo alheio, tentando exorcizar deles mesmos a aludida falha social. “Nós somos melhores!”

Todo o contrário é a proposta ideológica do “Falso Espetáculo”, que no dizer de Elisa Ohtake visa a “criar brechas para que contornos possíveis ou impossíveis, verdadeiros ou falsos, otimistas ou pessimistas, quiçá momentaneamente possam se abrir a experimentações, a liberdades artísticas, à pergunta de Espinosa: ´O que pode um corpo´?”.

Uma proposta humanista, de “borrar contornos” do já estabelecido propiciando o emergir de coisas novas, ainda que impuras, ainda que imperfeitas, mas denunciadoras de facetas inexploradas desse “mundo dado”. Oscilando “entre um relativismo niilista e seu oposto”, os intérpretes partem da idéia de que “tudo é impossível” para a de que “tudo é possível”. E não há contradição entre uma coisa e outra, porque ambas se validam, conforme o olhar que lhes for lançado.

Comungando as mesmas idéias e (in)certezas, Elisa e seus parceiros cênicos, Emerson Meneses e Ricardo Oliveira, têm por rede de segurança um conjunto de idéias filosóficas que vão de Espinosa até Willem Reich, mas não as usam como álibi ou escudos acadêmicos, e sim como setas indicativas dos caminhos do pensamento neste mundo ideológico em que “pensar é impossível”. São as contradições com que se debatem em volúpia de intérpretes, até o desespero e a vontade de fugir. E a fuga, que sendo verdadeira é também fingida (estamos no mundo dos signos, da ficção que propõe realidades), resulta na volta. Fortalecidos pela falsa fuga, partem para um desmonte final dos conceitos, das estruturas intelectuais e físicas, ampliando o espaço do espectador do micro para o macrocosmo.

E lá no infinito, entre as estrelas que enfeitam este céu de abril, divisamos a grandeza que está implícita em nossa ínfima forma, em nosso pequeno corpo ante a vastidão cósmica. Talvez (certeza não há jamais) quanto mais conscientes formos de nossa pequenez, melhor vislumbre teremos do Infinito. Quem sabe nesse aspecto Elisa Ohtake esteja sendo estimulada pela sua porção oriental, para uma visão zen de mundo. E neste caso, “Falso Espetáculo” ganha novas tonalidades filosóficas e espirituais. Hipótese que é reforçada pelo próprio nome escolhido para o seu grupo: Cia. Vazia. Nada por acaso.


Na foto: Ricardo Oliveira, Elisa Ohtake e Emerson Meneses na cena inicial de "Falso Espetáculo".


 
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