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 Crítica > Crítica > Opinião crítica de Sebastião Milaré.

A PEDRA DO REINO


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Depois de ter viajado por vários Estados, volta ao cartaz no Teatro SESC-Anchieta A Pedra do Reino.

Finalmente Antunes Filho levou à cena a adaptação do romance de Ariano Suassuna A Pedra do Reino. Um velho projeto. Na primeira metade dos anos 80 trabalhou com seus atores sobre o romance, no CPT, por muitos meses, adaptando-o através de workshops. Mas Suassuna não aprovou a adaptação. Desse modo, a peça, com a montagem quase pronta, teve a produção suspensa. Porém, no dia da estréia, a atual adaptação foi aprovada publicamente por Ariano Suassuna, emocionado com o que viu em cena.

A obra voltou às mãos do encenador no momento apropriado, quando terminou o ciclo das tragédias gregas, que representou na sua trajetória artística a conquista de um território poético. E a volta trouxe reminiscências do início de todo o processo, reportando à criação de Macunaíma.

Passeiam em A Pedra do Reino figuras agrupadas, composições creditadas ao “faz-de-conta” e ao “vir-a-ser”, que reportam ao universo mágico de Macunaíma. Estamos novamente envolvidos pelo imaginário nativo, cheio de mitos e de lendas. Mas ao contrário da obra de Mário de Andrade, que faz de Macunaíma um arquétipo do povo brasileiro, sem definição regional (por isso é herói sem nenhum caráter, no sentido de característica regional), o romance de Ariano Suassuna refere-se a um período específico da história nacional, marcado pela Revolução de 1930, e a uma região determinada, o Estado da Paraíba, estando o próprio autor na pele do seu personagem, Dom Pedro Diniz Ferreira-Quaderna. Ele narra os acontecimentos históricos como fatos da mitologia sertaneja, mergulhando no sem-tempo do mito.

Na visão de Antunes Filho, a obra recupera o sertão prenhe de encantamentos. Sertão de tesouros enterrados, reis destronados, princesas degoladas e ciganos bandoleiros; terra de príncipes com olhares lânguidos e sanguinários cangaceiros. Nessa paisagem peculiar, banhada de sol e castigada por longas estiagens, seca inclemente que expulsa muita gente local para outras terras, o “faz-de-conta” e o “vir-a-ser” são dois modos de resistir e de permanecer à espera de tempos melhores.

Ao contrário de Macunaíma, que com a liberdade de um ser de fábula viaja pelos sítios mais longínquos e inesperados da imaginação, Quaderna, o anti-herói da Pedra do Reino, tem região certa, e mais ainda, tem a sua cidadezinha, Itaperoá, em cuja cadeia está confinado e de onde vê a tripla face do Sertão, constituída de Paraíso, Purgatório e Inferno.

E naquela paisagem desolada, Quaderna, a 9 de Outubro de 1938, aguardando as decisões da Justiça e sabedor de que a qualquer momento a Onça-Malhada do Divino pode atacá-lo para o sangrar, ungir e consagrar pela destruição, ele passa a narrar suas desventuras ao povo que presumivelmente o observa.

A fábula de Quaderna constitui-se dos ardis e da astúcia do autor, que se camuflou na pele do personagem e camuflou na paisagem, assim como em peripécias menores e maiores do enredo, a história da sua família. Uma história sertaneja, que mistura política e epopéias legendárias, a realidade de um tempo e o não-tempo de todas as realidades.

Talvez o público nada conheça da História, não sabe do massacre de Pedra Bonita, depois chamada Pedra do Reino, fato histórico ocorrido um século antes da narrativa de Quaderna, mas que é o seu porto de partida e, na confusão de tempo-espaço, o porto de chegada. Nem sabe, esse público, o que foi o levante de Princesa, liderado pelo coronel José Pereira, em 1930. Talvez não saiba sequer do assassinato de João Pessoa, perpetrado por João Dantas, naquele mesmo ano de 1930, quando uma revolução tinha início para mudar o destino deste país-continente chamado Brasil. Mas, a ignorância do hipotético espectador não o impedirá de fruir a narrativa cênica de belezas e de encantamentos realizada por Antunes Filho e seus atores do CPT-Grupo de Teatro Macunaíma. Pois é uma narrativa poética, produzida pela inteligência e pela sensibilidade, que ao espectador solicita apenas sensibilidade e certa dose de atenção.

Os caminhos físicos e espirituais do sertão apresentam-se em cena. Na mesma medida em que Quaderna , confesso cruzamento de Rei e de Palhaço, destila suas memórias reais e imaginativas, o palco vai sendo percorrido por figuras que parecem, às vezes, arte de Mestre Vitalino, outras vezes, artimanhas de brincantes e, sempre, geniais invenções poéticas de artistas armoriais. São belos testemunhos de um tempo lendário, no qual se arquitetou a realidade nacional contemporânea. São nossos vestígios míticos, que não pulverizaram no tempo, pelo contrário: podem ser notados tanto nas periferias das grandes e pequenas urbes quanto no centro do Poder republicano.

Não só o trajeto dos personagens de Ariano Suassuna pelo tablado do Teatro SESC-Anchieta, executados em desenhos quase coreográficos, lembram Macunaíma: o próprio elenco, formado por atores muito jovens, alguns estreantes, evoca igualmente a epopéia do grupo que há trinta anos criou, sob coordenação e direção de Antunes Filho, um dos mais belos espetáculos teatrais do século 20.

A excelente preparação do elenco é perceptível nos pequenos detalhes, na harmonia dos gestos, na partitura vocal, na segurança do movimento e da expressão, evidenciando a técnica interpretativa que particulariza do CPT-Grupo de Teatro Macunaíma. Nesse elenco tão bem preparado, vigoroso e homogêneo, cabe justo destaque ao jovem ator Lee Thalor, surpreendente criador do Quaderna.




 
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