Era antigo sonho de Antunes Filho encenar a Medeia de Eurípedes. Foram várias as tentativas, envolvendo intérpretes de grande qualidade, como Marlene Fortuna e Luiz Melo. Mas as produções não iam à frente. E o problema era sempre o mesmo: afirmava Antunes que o elenco não se encontrava preparado para tragédia grega. Podia ter um ou dois preparados, mas não o conjunto.
Ele não queria atores repetindo coisas habituais nas encenações de tragédia, como voz projetada, quase sem nuances e com cantadinhas no final do verso, ou a gritaria interminável. Uma das suas preocupações foi pesquisar a técnica vocal plenamente vinculada à técnica corporal, de modo a tornar a voz instrumento de valor estético e não um obstáculo à expressão. Esse obstáculo aparece quando se usa músculos e nervos, quando se trabalha na projeção e, desse modo, importa ansiedade, eliminando a auto-expressão. Corpo e voz, uma só respiração, uma só pulsação. Nada deve ser projetado, mas lançado pela ressonância, propõe Antunes Filho. E mais: que tudo seja operado pela sensibilidade, nunca pela emoção bruta, ou pelo impulso, ou pelo raciocínio.
E quando, no trabalho com os atores, percebeu que a técnica já era dominada por quase todos, podendo agora a voz ser instrumento expressivo e não um estorvo, voltou a pensar na tragédia grega.
Não partiu direto para Medeia, desta vez, começou a caminhada com As Troianas, também de Eurípedes, que adaptou e rebatizou com o nome de Fragmentos Troianos. Embora trabalhasse sobre uma estrutura de tragédia, na verdade não a encenou como tragédia e sim drama. Belo e vigoroso drama, é verdade, mas ainda não tragédia. O mundo material, com seus conflitos sociais e raciais, estava muito presente na cena, pouco espaço deixando para as forças irracionais, simbólicas e metafísicas, que tecem as tramas trágicas. Mas o elenco apresentava uma qualidade técnica e interpretativa que o autorizava a fazer tragédia. A começar pela magnífica performance de Gabriela Flores no papel de Hécuba. Desse modo, no CPT acendeu-se o sinal verde para a tragédia.
Finalmente, encenando Medeia Antunes chega ao panteão trágico e com brilhante visão da matéria trágica. Tratou o personagem como arquétipo e o tema como produto do pensamento arcaico. Medeia é Gaia, a Mãe Terra. E no despontar do século 21, Gaia acha-se tremendamente agitada, manifestando-se através de catástrofes naturais, somadas a outras diretamente provocadas pelo homem. É o pensamento ecológico que preside a interpretação que Antunes Filho deu à tragédia de Eurípedes.
Na primeira versão, feita ano passado, a metáfora ecológica era explicitada desde o início do movimento cênico, que mostrava homens carregando troncos de árvores, num cortejo finalizado por um dos destruidores de florestas portando motosserra. O cenário acentuava a idéia da destruição da natureza de modo singelo: as entradas e saídas dos atores, à direita ou à esquerda, davam-se pelos portais cobertos de cortinas com pinturas de florestas incendiadas. Em outro ponto do palco, no proscênio, um minúsculo jardim japonês, com plantas, pedras e uma torneira que jorra água. O cenário traz à reflexão, por meio de elementos mínimos, essenciais, todo o drama do mundo atual, que repousa no sentimento auto-destrutivo do ser humano.
Na segunda versão, em cartaz no SESC Belenzinho, a metáfora não desaparece da tessitura dramática, desaparecem as referências explícitas, cenográficas. Já não entram os assassinos e carregadores de florestas assassinadas; já não existem as cortinas com florestas incendiadas, a história ficou restrita às palavras. O que não implica o desaparecimento da metáfora e sim a radicalização do minimalismo cênico.
Medéia continua sendo Gaia, a Mãe Terra, que se vinga dos ataques sofridos pela ação destrutiva dos homens matando os próprios filhos. Mas representa também, nos panteões da antiguidade clássica, o momento de crise estabelecido pela queda do matriarcado. Um momento que se perpetuou no mundo ocidental até o século 20 e que entra no século 21 ainda não solucionado. Esse aspecto da tragédia não contradiz a abordagem ecológica da encenação, pelo contrário, realça. Configura, igualmente, uma crise humana que pode ser paradigma da crise da humanidade.
Embora Medéia, a Mãe Terra, tenha assassinado os filhos, sai de cena com eles, como a grande e divina Gaia, levando-os no Carro do deus Sol. Desse modo, sem psicologizar o personagem, mantendo-o mítico, arquetípico, o espetáculo solicita reflexão sobre a condição social da mulher no mundo (ainda) dominado pelos homens, na mesma medida em que manifesta abertamente o seu protesto ecológico, contra a destruição das florestas, assim como a poluição dos rios e do ar, que equivalem a um atentado contra a própria espécie.
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A encenação de Medeia 2, embora sem os requintadíssimos elementos cênicos criados por Hideki Matsuka, que dialogavam com os intérpretes na versão original, mantém o mesmo vigor e os mesmos significados, nesta segunda estréia. Realmente o palco ficou nu, despojado, ou seja: um campo aberto para os intérpretes. O resultado evidencia duas coisas: que Antunes Filho considerou estar o elenco, finalmente, à altura da tragédia grega, por um lado, e por outro, que o elenco honrou a confiança do mestre, mantendo o espetáculo em plano de grande beleza e rigor criativo.
O coro é um exemplo de que o trabalho conjunto e a própria natureza do coral não significa expressão massificada, um bloco indistinto, pelo contrário: é um conjunto bastante homogêneo de pessoas diferentes, cada qual reproduzindo as mesmas palavras que os outros, mas com sua individualidade presente. O ritmo é que une as mulheres do coro; o ritmo as torna um grupo harmônico até nas suas diferenças.
E a atuação do coro está em permanente ressonância com a atuação de Juliana Galdino, em sua superior interpretação de Medeia. A partitura vocal corresponde à partitura corporal do coro e demais intérpretes, mas todos os movimentos parecem se irradiar de Medeia. Como um estranho ballet, a movimentação cênica do espetáculo, tão bem articulada com a com a parte vocal, vai criando formas, gerando camadas de significados, levando-nos a ver Medeia ao mesmo tempo mito e criatura humana. Nesse hiato entre as divindades e os mortais reside o encanto e o mistério de Medeia. E é nesse hiato que se movimenta Juliana Galdino, indo das razões humanas às decisões divinas, com energia e com o encantamento do jogo.
Sem dúvida Antunes Filho conseguiu, finalmente, um método eficiente para a preparação do ator. Não bastassem as jornadas de Prêt-à-Porter, que vêm encantando o público com o seu “falso naturalismo”, esses atores chegam a um novo estilo de representação, onde tudo é desenhado. E imediatamente o desenho ganha vida.
Na foto: Juliana Galdino em "Medéia".
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