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 Crítica > Crítica > Opinião crítica de Sebastião Milaré.

A DANÇA QUE REIVINDICA DIREITO AO DRAMA


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O teatro coreográfico de Sandro Borelli numa brilhante versão de "O Processo", de Kafka.
“A dança reivindica para si o direito ao drama”, diz a resenha de apresentação de “O Processo”, de Franz Kafka, coreografado e dirigido por Sandro Borelli. Resenha constante do singelo postal-programa entregue ao espectador na entrada da Sala Paissandu (Galeria Olido). O postal-programa pode ser modesto, mas a frase acima citada, em face do que se vê no palco, assume status de verdadeiro manifesto estético, pois o espetáculo lhe confere inquestionável legitimidade.

Com requintes estilísticos Sandro Borelli parece glosar criticamente os primórdios modernos da dança ocidental, serva da geometria. Mas não o faz frivolamente e sim por necessidade expressiva. A simetria caminhando inexoravelmente à assimetria do desenho coreográfico, evoca um ritual auto-destrutivo, externando a concepção do coreógrafo sobre a obra de Kafka, da qual faz síntese radical: com coragem de moleque e de sábio, expõe e reduz a metafísica kafkiana à CULPA.

De fato não há qualquer novidade na afirmação da Culpa como elemento fundamental do pensamento kafkiano. Muita gente importante já disse o mesmo. Mas, na adaptação da obra para outro meio expressivo, como o fizeram André Gide e Jean-Louis Barrault para o teatro, ou Orson Welles para o cinema, ninguém chegou à síntese absoluta, que no gesto repetido ao infinito capta em toda a sua grandiosidade o DRAMA, como fez Sandro Borelli nesta bela versão coreográfica.

A culpa judaico-cristã (a bem da verdade, mais judaica do que cristã) não preencheu todos os labirintos nem desvendou todos os abismos ao grande poeta/profeta tcheco. Mas revelou-lhe a impossibilidade da queda fundamental, ou queda trágica, para o ser humano moderno. Intuitivamente Sandro Borelli seguiu pegadas, como um Sherlock Holmes metafísico. Foi pela “Metamorfose”, construindo um espetáculo denso, poeticamente livre das amarras humanas que tentam prende-lo á realidade cotidiana, sufocando-o talvez na gosma que sai da boca da barata. Viu em “O Abutre” que o homem não consegue fugir à perversa predestinação. Constatou em “Carta ao Pai” a permanência do choque entre Deus e o Diabo, vitimando Jó. E em “O Processo” revela o triunfo perene da Culpa em quantos Joseph K surgirem pela frente.

Uma procissão interminável de Joseph k. pois a malograda queda, na acepção kafkiana, não é do indivíduo, mas da espécie. Não a queda em função do jogo do Poder, como em Shakespeare. Porque o próprio Poder é coisa sem sentido, pista falsa super valorizada nos tempos atuais. O jogo existe, mas é extremamente sutil. A queda da espécie através do indivíduo, todavia, virou um processo endêmico, que não se consuma nos tempos modernos, ainda dominados pelo Iluminismo do século 18 e racionalismo do século 19, que repudiam o mito e a possível salvação através do mito.

A consciência do pecado original, produzida pela formação judaica, leva Kafka à busca aflitiva do Deus que ainda não se fez Homem, mantendo (do ponto de vista junguiano) com a humanidade a mesma relação que teve com Jó. No ensaio “Resposta a Jó”, Jung considera que a intenção de Deus (Javé) em tornar-se homem, foi o resultado do seu entrechoque com Jó e “realizou-se plenamente na Vida e na Paixão de Cristo”. Este recurso mítico-filosófico não acode o grande poeta judeu, nem o libera da angústia filosófica por estar fora da sua cultura e da sua fortuna mística.

Sobre isso há de se considerar, ainda, o fato de ser ele homem moderno, filho do cientificismo do século 19, que celebra o individualismo e isola o sujeito do coletivo, deixando-o como ilha açoitada pelas intempéries, sendo a maior das intempéries a Culpa. Perdeu-se aquela noção de coletivo que obedece ao mito emanado do pensamento arcaico. Então, a Culpa ancestral serve-se dos elementos cotidianos para se manifestar. E se manifesta potencializada, corrosiva, impiedosa, não dando trégua ao indivíduo, transferindo-se de uma para outra ilha (os Joseph K.), sem uni-las e sem diferenciá-las, tornando-as pasta amorfa que, cegamente, se remete ao inconsciente coletivo e nunca poderá alcançá-lo. Tudo o que nega, por irônico paradoxo, constrói a trilha para o porto e para o abismo. Mas o grande castigo do homem moderno é permanecer no limbo, sem chegar ao fim da trilha, que lhe ensejaria através do porto singrar os mares desconhecidos, enfrentando monstros até os limites extremos do mundo, chegar ao caos libertador, ou lançar-se ao abismo para a queda que o tornaria divino. Fica preso dentro de si mesmo, em pânico constante, atrofiado pelas burocracias e por conveniências morais, balbuciando palavras temerosas, carregando a culpa pela vida afora.

Assim é revelado o drama do homem kafkiano no teatro coreográfico de Sandro Borelli. Teatro, porque nele o drama se faz presente e se torna matéria-prima da expressão. Coreográfico, porque o artista não se afasta um milímetro da sua língua materna: a dança. E ao ver esse poema-concreto, que na crueza do movimento preciso, cirúrgico, fatal, vai revelando a alma do homem moderno em seu recôndito mais escuro e, ao mesmo tempo, iluminado, ocorre-me que o teatro está para a dança assim como a prosa está para o verso. Por mais poética que seja a prosa ela raramente consegue estilhaçar e ampliar o sentido da palavra como fazem os grandes artistas do verso. A síntese da poesia é radical, como a narrativa cênica obtida através do gesto e do movimento na coreografia de Borelli. Não é necessário enredo, nem peripécias, nesse teatro coreográfico: basta-lhe o núcleo do tema e o pensamento nuclear do artista que o revela através do corpo e do movimento dos seus dançarinos.

E que maravilhosos dançarinos! Também eles não se contentam com simetrias perfeitas, nem exibem a técnica por ela mesma. Pelo contrário, revelam a conquista de técnica incomum para a expressão da idéia, do pensamento que a tudo move e a tudo dá sentido. A começar por Vanessa Macedo, na brilhante e emocionante performance como a Culpa, todo o elenco – Daniella Rocco, Edson Calheiros, Elisângela Ferreira, Elizandro Carneiro, Robson Ferraz, Dudu Oliveira -, todos eles atuam em comunhão cênica, mostrando-se autênticos dançarinos-comediantes que conferem sentido artístico e intenso brilho ao teatro coreográfico de Sandro Borelli.


Sebastião Milaré


Foto: Gal Oppido

 
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