Mario Bortolotto está entre os mais férteis dramaturgos em atividade no teatro brasileiro. Com freqüência novo texto seu é apresentado pelo Grupo de Teatro Cemitério de Automóveis, que criou há 25 anos em Londrina, e há uma década transferiu para São Paulo. Mas além das suas obras originais, não raro se apresenta em parcerias com “almas gêmeas”, contestadoras como ele, atuais representantes de linhagens literárias que procedem do Marquês de Sade, de Rimbaud, Mallarmé, Artaud, Kerouac, Bukowski, passando pela contracultura dos dadaístas, dos beats, dos hippies, dos punks. Assim é que realizou parcerias com o poeta Maurício Arruda Mendonça, adaptou obras de contistas e romancistas, como Marçal Aquino, Mirisola, Daniel Pellizzari, Cristiano Baldi, autores que têm um jeito transgressor de falar da realidade social e de descrever o comportamento do homem contemporâneo. Por fim, encontrou não poeta ou romancista, mas um cartunista, designer gráfico de notável talento, que integra tais linhagens, honrando-as com trabalhos vigorosos e absolutamente transgressores: André Kitagawa, autor de “Chapa Quente”, obra constituída por sete histórias em quadrinhos, que Mário Bortolotto adaptou para a cena.
Neste caso, não está mudando o critério das parcerias e sim radicalizando um dos aspectos fundamentais da sua visão estética. A idéia da história em quadrinhos esteve sempre presente no seu trabalho, tanto nos textos quanto na elaboração cênica. Evita a todo transe o teatro psicológico e, desse modo, seus personagens despsicologizados são parentes muito próximos de figuras de cartoon. Constituem, em princípio, clichês ou estereótipos, mas adquirem a possível “alma” pela arte do encenador e dos atores, que os elevam à condição de arquétipos. A narrativa presa à palavra induz à caracterização psicológica, enquanto que a narrativa elaborada através dos traços se expressa na forma pura da imagem, sem mediações – nessa forma o arquétipo está potencializado.
O encontro do teatrólogo com o cartunista resultou, portanto, na radicalização de uma idéia, de um conceito dramático. Com inteligência, Bortolotto não tentou desenvolver diálogos ou “teatralizar” as situações narradas (ou, melhor dizendo, desenhadas) por Kitagawa, como ocorre quase sempre nas adaptações de histórias em quadrinhos para o teatro ou o cinema. Como diálogo usa as mesmas frases que o cartunista escreveu em balõezinhos, para significar o que falam os personagens, ou as frases explicativas que aparecem no quadrinho. Assim agindo, deu materialidade (carnes e nervos) às figuras desenhadas, mas sem sobrecarregá-las de pulsões ou explicações psicológicas. Elas são o que são: marionetes de uma força maior que a tudo manipula e pouca margem deixa para o ser humano exercitar sua humanidade, a sua “faísca existência”. São apenas traços, desejos reprimidos, realidades aventadas ou inventadas... condição, a bem da verdade, a que está submetida toda gente nos dias que correm, diriam esses poetas malditos. Condição, especialmente, dos que habitam cidades iguais a São Paulo.
O Estigma da Metrópole
Embora apareça em cena com insistência a imagem do avião aproximando-se de uma torre, enquanto a outra já está sendo detonada, não é a Nova York que as sete histórias de “Chapa Quente” se referem, mas a São Paulo. E também ao Rio de Janeiro. Como exemplo de outras metrópoles, especialmente aquelas de regiões de economia periférica, onde a vida passou a ter pouco valor. Por nada, talvez por não gostar da roupa ou da cara do cidadão, o bandido dispara sua arma sobre o sujeito que encontra na rua. Crimes motivados mais pelo humor do bandido, do que por estratégia ou conveniência criminosa. A vida, nesse contexto, é uma bobagem. Em São Paulo, como no Rio de Janeiro, com alarmante freqüência pessoas são vítimas de bala perdida dentro da própria casa, ou à porta da escola, ou atravessando a rua, ou tomando sorvete na lanchonete. Tais fatos do dia-a-dia tornam os ataques às torres do World Trade Center apenas um símbolo: a imagem concentrada de cotidianos e sistemáticos massacres que marcam este início de século e estigmatizam metrópoles.
Os agentes visíveis dessa “força maior” (bandidos, assassinos) são também uns pobres diabos produzidos pela mídia da sociedade de consumo, quem sabe, ou pela insensatez histórica dos poderosos, ou pela miséria não só material, mas também espiritual que assola o mundo contemporâneo.
Perfeito exemplo da pulverização da responsabilidade de tais “agentes” está na primeira história, “Balada Sangrenta”, narrada por um indivíduo que matou o outro, tido como seu melhor amigo, sem que ele mesmo consiga dizer o que o levou ao crime. “No velório chorei que nem menina”, diz ele. E tenta justificar o pranto: “Foi só pensar que talvez ele estivesse indo para um lugar muito louco... enquanto eu continuava naquela merda”. A mãe da vítima dá-lhe todos os CDs do morto, mas ele os destrói, sem que se explique também essa atitude, uma vez que gostava dos CDs. Termina sendo preso pelo crime. Certa noite, na cadeia, enquanto dormia, foi assassinado pelo colega da cela, sem que se saiba igualmente por que motivo. O fato é que acordou no Inferno, onde encontrou o amigo que matara. Continuam amigos e o outro lhe agradece pelo envio dos CDs. Ficam por lá curtindo o som, maravilhados porque os aparelhos de som dos infernos não têm equalizador. São metáforas terríveis, a despeito do cinismo e do humor, ou justamente pelo cinismo e pelo humor.
Não interessa ao cartunista nem ao poeta da cena apontar com dedo em riste as causas do caos estabelecido. Ele está aí, no mundo, exercido em alguns lugares pelo fundamentalismo religioso, em outros pelo narcotráfico, pelo crime organizado, em quase todos pela desesperança. Através de metáforas, que fazem questão de ignorar sociologia e psicologia, esses poetas só querem revelar o caos com suas ferramentas expressivas – não fugindo a certa perplexidade, mas tentando ocultá-la sob a capa do sarcasmo. Com ironia lamentam os pobres personagens; lamentam essa massa que emerge da promiscuidade de criminosos e vítimas, sendo quase impossível distinguir uns dos outros.
A esperança se revela no apaixonado abraço dos amantes da última história. O casal vê televisão. É um noticiário, com narrativas de desastres e crimes. Indiferente às desgraças cotidianas que animam os telejornais, a moça pergunta: “Como foi que descobriu que me amava?”. Enquanto o âncora da TV fala do desemprego entre os jovens como uma das principais causas da violência, ele pensa um pouco e responde que a descoberta “foi que nem uma explosão: de repente buuummm, e aí tudo ficou diferente, tudo fez sentido...”. E no momento em que um seqüestrador aponta o revólver para a cabeça de uma mulher, na tela da TV, o casal abraçado, beija-se apaixonadamente. A esperança retorna com o amor. Como se em busca da própria salvação, os poetas restabelecem o valor da inocência através do ato amoroso.
O Desafio aos Atores
Há intensa cumplicidade dos intérpretes na autoria da narrativa cênica, não apenas deste, mas de qualquer espetáculo do Cemitério de Automóveis. Muitos atores não integram o grupo: são convidados. Isto é comum especialmente nas mostras que o Cemitério de Automóveis realiza, apresentando extenso repertório (em uma delas havia 24 produções diferentes). “Chapa Quente” integra a 4ª Mostra do Grupo, realizada no Espaço Cênico Ademar Guerra, do Centro Cultural São Paulo. Como sempre, o evento conta com a participação de uma dezena de atores convidados.
Esses profissionais do palco juntam-se com alegria ao grupo para uma experiência peculiar, vivenciando o processo criativo desenvolvido por Bortolotto. Processo caracterizado por curtíssimo tempo de ensaios. Ampla liberdade criativa é facultada aos atores, mas rigorosamente dentro dos parâmetros e critérios estéticos estabelecidos pelo encenador. Outra característica do processo é o baixo custo de produção, valorizando o ator e a ocupação do espaço cênico, o que resulta na forma inteligente, econômica e objetiva de contar a história.
Tais méritos somados à rebeldia inerente ao ato criativo do grupo, à sua visão crítica da sociedade, à linguagem coloquial e sarcástica, encontraram um público que nunca abandona o Cemitério de Automóveis, pois identifica nos espetáculos a realidade atual em roupagens grotescas, exposta quase sempre através de clichês e de estereótipos convertidos em instrumentos de narrativa cênica, buscando uma expressão que transcenda os próprios clichês e estereótipos. Este é o desafio que atrai tantos atores de diferentes formações para o Cemitério de Automóveis.
Em “Chapa Quente” o desafio chega ao extremo. O ator deve fazer o personagem saltar dos quadrinhos para a cena sem trair a natureza do original. Quer dizer: deve apenas outorgar volume, massa muscular, ao que foi criado por traços, sem dar-lhe tintas psicológicas. Isso, todavia, não pode ser confundido com interpretação plana e rasa, simplesmente estereotipada. Pelo contrário, a graça está exatamente em tornar o estereótipo algo vivo, convincente, com certa vibração – o que significa dar-lhe o status de arquétipo.
Para isso o ator deve fugir aos processos realistas da construção do personagem. O que interessa é a própria compulsão que o leva a agir e não os fundamentos psicológicos, sociológicos ou morais dessa compulsão. É a emoção em estado bruto. O irracionalismo movimenta o personagem e permeia as suas relações sociais, familiares e íntimas. Isso obriga o ator a uma composição precisa, sem floreios vocais ou corporais, sem meneios descritivos ou sentimentalismo na entonação. Paradoxalmente, no entanto, deve humanizar o personagem, torná-lo convincente à platéia. E um dos fatores que o humaniza é o sentimento generalizado de profunda solidão.
Os canais de comunicação entre as pessoas, nesse universo árido e cruel, estão truncados, levam a equívocos muitas vezes fatais. Essa face de “Chapa Quente” espelha de modo radical o sentimento que sugerem habitantes das metrópoles periféricas, como São Paulo e Rio de Janeiro, cercando-se de grades, blindando carros, lançando olhares desconfiados e temerosos, como se fossem permanentes alvos do Azar ou do Desconhecido. E desse modo cada um constrói em torno de si muralhas e se refugia na inexorável solidão.
Onze atores em cena deslindam esse universo de precariedades humanas, dando-lhe admirável unidade, a despeito das suas diferentes escolas e formação artística. Todos criam sob a perspectiva do cartoon, construindo personagens a partir do conflito de base, que surge não como um problema a se solucionar, mas destino e condenação do sujeito. Passam da caricatura a um entorpecimento dos sentidos com extraordinária delicadeza. Ao cinismo do personagem sucede o sorriso melancólico do ator, delatando a fraqueza daquele que se veste de valente. As contradições são expostas em preto e branco, sem meios tons. Assim realizam esses intérpretes os seus personagens, em traços puros de um cartoon vigoroso, que se apropriou da cena com o objetivo plenamente alcançado de divertir e emocionar o espectador.
Direção a Quatro Mãos
Pode-se dizer que no espetáculo é realizada, quase à moda de manifesto estético, a síntese do trabalho criativo de Mário Bortolotto com seus atores e colaboradores, tanto no plano dramatúrgico quanto no âmbito da encenação. Ideologia e mecânica narrativa nele encontram síntese, expondo a dialética da sua construção.
Ao que foi comentado acima, sobre o trabalho dos atores, deve-se acrescentar a idéia do ambiente em que se movem os intérpretes, pois sem dúvida eles são estimulados e motivados por esse ambiente. Aqui encontramos na cena o próprio cartunista, André Kitagawa, em trabalho de tanta importância que levou Bortolotto a apresentá-lo como co-diretor do espetáculo.
Em artigo do programa, depois de confessar fidelidade ao autor que adapta para o teatro, pois quer ver a obra do outro integralmente no palco, Bortolotto afirma: “Neste trabalho, que pede uma fidelidade ainda maior, já que as cenas já existem e já foram visualizadas (diferentemente da obra apenas escrita), preferi inclusive chamar o próprio autor para assinar a direção comigo”. Atitude elegante, sem dúvida, e acima de tudo honesta. Pois, na verdade, a projeção de ilustrações e animações de André Kitagawa foi de fundamental importância para o espetáculo e deu sustentação absoluta ao trabalho dos intérpretes, contextualizando-o na linguagem do cartoon.
Em painéis colocados ao fundo e nas laterais do cenário são projetadas as ambientações dos quadrinhos. Desse modo, os atores integram-se à linguagem gráfica do cartunista, o que não apenas justifica aquele tipo de interpretação, mas o redimensiona. A conjunção do grafismo projetado com a ótima trilha sonora de Mário Bortolotto e Kitagawa, somados à excelente iluminação de Bortolotto e Marcelo Montenegro e à movimentação dos intérpretes, resulta numa estética contraditoriamente familiar e inovadora.
Aliás, tudo se desenvolve em extraordinária unidade contraditória. Tanto as histórias narradas quanto os elementos utilizados para a narrativa. Tudo se revela em termos dialéticos. São indagações e não afirmações, que só essa direção a quatro mãos, unindo o encenador ao diretor de arte de modo absoluto, poderia materializar em cena.
Desde a idéia inicial do projeto artístico até sua admirável conclusão, “Chapa Quente” é, inegavelmente, um dos mais criativos e inovadores espetáculos vistos nos últimos tempos em palcos brasileiros.
Foto: Jo Capusso.
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