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“O mundo como vontade e representação”, do velho Schopenhauer, é o que traz à lembrança a peça de Samir Yazbek “O Invisível”, que terminou a segunda curta temporada paulistana, no TUCA. Um Schopenhauer de hoje, que parece estar teclando em salas de bate-papo da internet, espargindo as dores do mundo pelo Orkut, ocultando-se ao revelar, emergindo da realidade que ao mesmo tempo é tão familiar quanto estranha e que forma o sólido chão de areia movediça sobre o qual tentamos construir caminhos.
Em “O Invisível” a vontade duela com o intelecto. A vontade é mola propulsora da vida – e vida é luta. Porém, esta é a vontade de quem acordou muito tarde dos desejos vãos. Ela já não serve à remissão do homem que de tanto ignorar o Outro, preso que estava nas redes de maya tecidas pelo intelecto, tornou-se invisível aos demais. Não é invisível, todavia, a um carinha, um jovem totalmente dominado pelo intelecto, como ele fora. Desse ponto de vista, é o conflito entre a vontade e o intelecto (de acordo com a concepção de Schopenhauer) o eixo do drama, cuja ação transcorre em um parque, um local público qualquer, onde as pessoas passam sem se ver, ignoram-se.
Embora o jovem tenha visto o homem “invisível”, não compreendeu sua angústia – a luta gera a angústia – porque também está preso nas redes de maya tecidas pelo intelecto, pela competição e pelo senso de oportunidade desta era consumista.
Não é uma questão de “incomunicabilidade” o que ocorre entre esses dois personagens: o poço é mais profundo. Mas, no final das contas, a “fábula contemporânea” de Samir Yazbek acaba lembrando a afirmação do cínico e pessimista Schopenhauer, de que os sábios de todas as eras sempre disseram as mesmas coisas e os tolos também sempre agiram da mesma forma, o que nos leva a Voltaire, para quem “deixaremos o mundo tão tolo e depravado quanto o encontramos”. O erro do velho renasce no novo e assim o mundo continua sempre igual, mas a caminho da própria destruição.
Um tema anunciado
No diálogo/monólogo “A Entrevista”, peça anterior de Yazbek, o autor anunciava nova abordagem a questões do relacionamento humano na sociedade contemporânea. Um relacionamento marcado pelo efêmero e pela supervalorização do sucesso, da imagem na mídia.
Numa cena de aparência vulgar e vazia de imaginação, daquela peça, quando um microfone apresenta defeito e a entrevista precisa ser interrompida, Samir Yazbek revela-se grande manipulador da narrativa. Há uma “quebra dramática” e a entrevistada, Lívia Vasconcelos – que é escritora do momento, alvo de homenagens oficiais e intelectuais – a partir desse efeito torna pública a sua miséria existencial. “O tempo vai passando”, diz ela, “e a gente percebe quanto dissipa as nossas melhores energias em bobagens. É por isso que eu tento me colocar à disposição, para facilitar esse processo de mudança, para que em breve eu consiga escrever sobre coisas que não sejam simplesmente a minha incapacidade de escrever sobre o que quer que seja”.
Embora apontada pela crítica discípula de Beckett (e sua pessimista auto-crítica de escritora auto-referente e metalingüística corrobora a idéia), há um sabor a Tchekov no vazio existencial que Lívia passa a expor na seqüência. Mas um sabor que não configura exatamente o tédio, como na obra do mestre russo, onde havia ainda espaço para o sonho. Aqui não: o sonho também se encontra esvaziado. Resta uma realidade fria, inóspita, pobre de imaginação, contaminada pelas fantasias da mídia e da publicidade. E sem saída. Não é como o tédio social descrito por Andrei em “As Três Irmãs”, que não o impedia de ter perspectiva de vida: “O presente é repugnante”, dizia ele. “Mas, quando penso no futuro, como tudo se torna maravilhoso! Sinto-me leve, sinto-me libertado e vejo ao longe surgir uma luz...”. Já a escritora apresentada por Yazbek vê truncadas as perspectivas. Sente-se num beco sem saída e fala da necessidade de “uma reflexão sobre a nossa incapacidade de agir...”, pois “justamente quando mais temos consciência de nossas limitações”, menos forças encontramos para ultrapassá-las.
A sensação de “beco sem saída” torna-se ainda mais cruel em “O Invisível”, onde se constata a inutilidade de qualquer esforço por superar não só nossas limitações, mas também o acúmulo de falsas informações e desejos fantasiosos, que são depositados em nosso espírito, pervertendo-nos as ações e os sentimentos.
O tema desdobrado em fábula
Ao “cair em si”, aquele homem se dá conta da sua invisibilidade, nota o abismo aberto entre ele e o mundo, em função das suas próprias ações e atitudes na relação com o mundo. A expressão “cair em si” pode, neste caso, ser entendida como uma espécie popular do “si mesmo” junguiano. Isto porque, de certa maneira, aquele homem faz a sua “individuação”. E com a “individuação”, toma consciência da distância em que se colocou dos seus semelhantes, graças às ilusões do sucesso, às fantasias consumistas.
Importante observar que “individuação” nada tem a ver com “individualismo”. De certo modo, é o seu contrário. O individualismo é um conceito do intelecto, resultado do raciocínio pragmático que reduz a própria História ao indivíduo. Já a individuação é o ato de conhecer-se na relação com o Todo, ou como parte do Todo. No individualismo a pessoa pode ser uma ilha; na individuação isto não é possível: o sujeito só pode conhecer-se através do Outro, porque ninguém está separado do Todo, nenhum ser humano é uma ilha!
Neste aspecto também a idéia de Schopenhauer é recorrente: quanto mais conhecimento tiver e mais sensível for o sujeito, maior será o seu sofrimento. Aquele homem consegue enxergar a realidade ao romper, por meio da individuação, os véus de maya que, estimulado pelas fantasias mundanas, seu intelecto teceu em torno de si, confinando-o no próprio ego. E o que vê é o deserto. Constata-se, nesse plano, como afirmava Schopenhauer, que “a vontade de viver saqueia a si mesma e de diferentes formas, é o seu próprio alimento, até que finalmente a raça humana, por dominar todas as outras, considera a natureza uma fábrica para seu uso”. Essa visão ecológica elimina qualquer limite artificial entre o ato humano em relação à natureza (a destruição das matas, a poluição do ar e dos rios, p.ex.) e em relação ao Outro (seja no âmbito afetivo, profissional ou social), reafirmando a antiga divisa “homo homini lupus”.
De fato em “O Invisível” há um argumento colocado pelo homem ao jovem, enfatizando a necessidade de alertar o filho para não despedir empregados da sua indústria pensando só em ganância, que lembra a divisa “o homem é o lobo do homem”, em sua aplicação marxista. Ao ler a carta, que o outro lhe solicita entregar ao filho, o jovem se recusa a fazê-lo: Os termos do “alerta” do homem ao filho são por ele classificados “patéticos” e, apesar das súplicas do outro, recusa-se a ajudá-lo. Ilumina-se então outro jeito de o homem ser o lobo do homem, que não diz respeito à relação de trabalho ou de poder de classe: passa sim pelo poder ocasional de praticar um ato de solidariedade. Ato que não é considerado em face da necessidade do outro, mas da conveniência ou do interesse de quem o poderia praticar.
Do estilo à encenação
Assim, parece que Samir Yazbek encontrou a forma adequada para expor sua visão de mundo no teatro. Tentou várias formas para vários conteúdos, visando sempre às relações conflituosas e desesperançadas do homem com o meio. Às vezes alcançando grande beleza, outras vezes em criação discutível. Mas em “A Entrevista” e agora em “O Invisível” revela o tom poético, dentro de forma exata, adequada e econômica, para expor sua visão pessimista das relações humanas nos dias atuais.
No curto percurso de uma peça para a outra, o autor revela ter conquistado domínio técnico na articulação de estilos para a depuração do seu estilo pessoal. O naturalismo que caracteriza “A Entrevista” reaparece nas falas do jovem de “O Invisível”, mas em contraponto a um tipo de expressionismo (invadindo muitas vezes o território do melodrama) na parte do homem maduro. Da dicotomia de estilos resulta a estranheza do texto, que em sua inegável unidade lembra diálogo de pessoas absolutamente diferentes entre si – tanto na idade quanto na educação – que se encontram e conversam em salas de bate-papo, na internet. A construção objetiva das frases, num plano coloquial e despojado, mas que não esconde certo artificialismo do sentimento de um pelo outro, acentua a impressão de que o modelo tenha sido esse.
A dicotomia de estilo foi reforçada em cena pela direção de Maucir Campanholi, que encontrou soluções admiráveis para materializar a metáfora da invisibilidade, numa esfera poética à qual a interpretação de Hélio Cícero confere densidade dramática extraordinária. Aliás, a dupla de intérpretes corresponde de modo perfeito ao que solicitam os personagens. A massa dramática, puxada para o expressionismo e resvalando no melodrama com que Hélio Cícero desenha o homem “invisível”, conseguindo na longa cena inicial sustentá-lo cenicamente apenas com a voz, contrasta com a “naturalidade” esquálida com que Daniel Warren compõe o jovem. O contraste é cheio de significado e muito bem administrado pelos dois atores, proporcionando à encenação uma qualidade metafísica e transcendental, dando vigor e beleza ao espetáculo.
Sebastião Milaré
Foto: Samir Yazbek (foto de Tuca Vieira)
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