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EM LOUVOR A GIANFRANCESCO GUARNIERI


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Faleceu hoje, em São Paulo, um dos mais importantes artistas do moderno teatro brasileiro.
Gianfrancesco Guarnieri vinculou-se ao Teatro de Arena por volta de 1957, quando o grupo estudantil que ele liderava junto com Oduvaldo Vianna Filho uniu-se àquela companhia, fundada e dirigida por José Renato. Havia um descompasso entre as idéias políticas dos dois jovens estudantes e a estética (portanto ideologia) praticada no Arena, que era uma versão pobre do rico TBC-Teatro Brasileiro de Comédia.

Aliás, o TBC, com seus diretores estrangeiros, era o paradigma absoluto para o teatro brasileiro da época. Os demais copiavam-lhe o repertório e o modelo estético, raramente obtendo êxito. Desse modo, àquela altura o Teatro de Arena ia de mal a pior. Por isso, José Renato decidiu fazer a loucura de encenar um texto escrito por Gianfrancesco, que destoava completamente da dramaturgia consagrada pelo TBC. Pior ainda: uma peça que colocava em cena operários num movimento grevista, com todos os problemas do dia-a-dia dessa classe sempre no limite da miséria, e com seu linguajar inculto, a prosódia das ruas de periferia e dos botecos de bairros pobres. Isso era coisa inédita em nosso teatro, que por influência do TBC andava mais elitista do que nunca. Mas, como o Arena agonizava, seu criador não viu qualquer inconveniente em colocar a peça do jovem dramaturgo em cena. Estrearia em janeiro, mês de movimento fraco nos teatros, talvez não se agüentasse em cartaz... mas, e daí?

Foi assim que em janeiro de 1958, o Teatro Arena apresentou o espetáculo que o inscreveria com honra e louvor na história do teatro brasileiro: “Eles não usam black tie”. Mais do que isso: um espetáculo que mudou a própria história do teatro brasileiro, derrubando o paradigma tebeceano e abrindo perspectivas aos criadores cênicos da terra para falar dos nossos problemas, para usar o linguajar das ruas, refletindo na cena, criticamente, a experiência brasileira daquele momento histórico.

Gianfrancesco Guarnieri, então com apenas 24 anos de idade, tornava-se um dos pilares da efetiva emancipação do teatro brasileiro. Seu companheiro de batalhas, o Vianinha, logo se retirou do Arena para instituir no Rio de Janeiro o Centro Popular de Cultura, que gerou outros centros populares de cultura pelo país inteiro, na utopia da pré-revolução brasileira, que o golpe militar de 64 abortaria. Mas ficou com ele e se tornou seu parceiro de dramaturgia e de cena Augusto Boal. Juntos criaram em 1965 o Arena Canta Zumbi, dando uma nova cara ao musical brasileiro, que obteve aplauso emocionado em dezenas de países...

Seu trabalho dramatúrgico prosseguiu nos anos mais duros do regime militar, colocando sempre a reflexão sobre a condição humana. Mais tarde, na época da “abertura política”, quando tinham início as manifestações civis pela Anistia e, depois, pelas “diretas já”, sua obra de estréia, “Eles não usam black tie”, foi levada ao cinema, por Leon Hirszman. O filme recebeu cinco prêmios no Festival de Veneza, incluindo o Leão de Ouro Especial do Júri.

Vêm à lembrança, em primeiro plano, os anos iniciais da carreira e da luta política de Gianfrancesco Guarnieri, hoje, 22 de julho de 2006, dia em que o dramaturgo e ator faleceu, aos 71 anos de idade.

É isso que nos vem à lembrança porque esse homem, nascido em Milão (Itália), com seu trabalho no teatro vinculou-se solidamente à história da cultura brasileira gerada pelas lutas libertárias e pelo pensar dialético. Isto o tornou um dos mais brilhantes brasileiros do nosso tempo.


Foto: Cena do filme "Eles não usam black tie" (1981), com Gianfrancesco Guarnieri e Fernanda Montenegro.
 
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