Haverá um mundo de paz e de fraternidade? Por mais que o dia-a-dia e os fatos divulgados pela imprensa o neguem, enchendo nosso cotidiano de gentes-bomba explodindo tanta gente, há sim um mundo de paz e de fraternidade. Esta afirmação, que reinstala a utopia, parece ser a súmula do espetáculo criado por Paulo de Moraes com os brilhantes atores do Armazém Companhia de Teatro, sobre o texto que ele assina com o poeta Maurício Arruda Mendonça “A Caminho de Casa”.
A parceria de Paulo com Maurício já resultou em belíssimas obras teatrais, nos últimos quinze anos. Este espetáculo, no entanto, mostra o encenador e o poeta mais afinados do que nunca. A palavra e a imagem se complementam em narrativa cheia de emoção e decisivamente crítica, construída tanto com gesto e olhar reveladores quanto com a palavra que os endereçam a um pensamento ético. Tudo em cena pulsa e agrega, digere e expressa. Rasga a alma com o horror, mas também a perfuma com o bálsamo da esperança de paz e de fraternidade entre os homens.
Raras vezes, nos últimos tempos, se viu espetáculo tão comprometido com a realidade contemporânea, indo poeticamente até o núcleo de questões agônicas, como a da fé e a da guerra santa. As histórias narradas em cena se passam em qualquer lugar e em qualquer tempo, embora especifique de modo vigoroso o embate judeu-árabe como modelo das relações humanas descritas. Mas o modelo é um exemplo, apenas. Tem arquétipos atuando como forças propulsoras do seu avanço. E nesta visão reside o fascínio de “A Caminho de Casa”.
Três movimentos, como se fossem três atos, expõem diferentes modos de olhar o mesmo acontecimento: um homem-bomba se explode dentro de um ônibus, matando 50 pessoas. A rodovia fica congestionada. Sem saber porque está tudo parado, as pessoas têm reações desencontradas, ficam nervosas, cada qual falando dos seus problemas pessoais, como se eles fossem os mais importantes do mundo. Isso gera pequenos conflitos entre os desconhecidos unidos pelo acidente. Quando se esclarece o motivo do congestionamento, a terrível notícia reduz a quase nada aqueles problemas individuais, antes super-estimados. Este é o primeiro olhar, lançado à distância e sem comprometimento direto com o fato, realçando a perplexidade das pessoas frente ao ato de terror.
O segundo movimento relata a ação solidária de um velho árabe para com um garoto judeu, cujo pai suicidou-se. Pessoas machucadas por tantas formas de discriminação e fanatismo, pela não aceitação das diferenças, dão-se as mãos e, através da compreensão mútua e da solidariedade, celebram a vida. Aqui está a grande utopia dos artistas do Armazém: a esperança de que os seres humanos venham a se encontrar na solidariedade, a despeito de todas as diferenças. Conforme essa utopia, quanto mais humaniza as relações, mais o homem se aproxima do Divino.
O terceiro movimento descreve o olhar de quem se lançou nos precipícios da fé. Na estrutura, é praticamente o solilóquio da mãe do “homem-bomba”, que se explodiu naquele ônibus. Um sofrido exercício de buscar razão para o irracional, justificando para si mesma a atitude do filho. E só encontra razão na fé, na crença de que é por ordem de Deus Pai que o jovem (quase criança ainda) pratica aquela monstruosidade contra si mesmo e contra as pessoas que por acaso perto dele se acham. Não resta a essa mãe outro consolo se não a crença de que o filho está no paraíso, junto ao Deus Pai. É o arquétipo da Mater Dolorosa.
Os três olhares são colocados em cena com muita arte, com extrema sensibilidade, fazendo com que o espectador se emocione frente ao dado humano e não por elementos exteriores, por conceitos morais ou coisas parecidas. A ação dramática é concisa, não se perde em qualquer tipo de elucubração. Conta as coisas como as coisas são, sem qualquer adorno filosófico ou cenográfico. Uma narrativa plena de contradições, como é a vida. E são as contradições que geram a pulsação dramática. Sensibilidade plena.
No elenco homogêneo, de excelente nível, cabe destaque a Simone Mazzer, que dá vida ao patético menino judeu, salvo pelo velho sufi; e a Patrícia Selonk que realiza a Mãe, da 3ª parte, fazendo viver em cena um arquétipo poderoso, no corpo alquebrado pela dor e pelo sofrimento. São momentos maravilhosos dessas grandes atrizes.
Cabem elogios, contudo, a todo o elenco, assim como à iluminação de Paulo César Medeiros, exata, propiciadora de climas, mas discreta; à cenografia de Paulo de Moraes e Carla Berri, também exata, quase minimalista; e aos belos figurinos de João Marcelino que, em harmonia com o texto, se inspira no Oriente Médio, mas poeticamente.
Sebastião Milaré
Foto: Thales Coutinho e Simone Mazzer, em "a história do velho sufi e do menino judeu", 2ª parte de "A Caminho de Casa".
|