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 Crítica > Crítica > Opinião crítica de Sebastião Milaré.

ARTE CIÊNCIA NO PALCO


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Ativo há sete anos, o grupo criado por Carlos Palma apresenta mostra do seu trabalho vigoroso.
A Aventura Quântica

Nos anos 20 do século passado a Escola de Copenhagen levou a nova física a páramos jamais imaginados pela inteligência científica. Naquela cidade, e sob comando de Niels Bohr, jovens físicos estabeleceram os fundamentos da mecânica quântica.

No Instituto Bohr, enquanto a bela esposa de Niels servia sanduíches, uns falavam de política, outros de filosofia, de música, de mulheres, de filmes de cowboys... Enquanto falavam disso tudo, estavam falando de física. Pouco experimento se fazia no Instituto, porque todos aqueles sábios se dedicavam à física teórica, sempre buscando maneiras de descrever a realidade do universo através de modelos matemáticos.

As bases lançadas por Max Planck ao formular a lei da entropia e estabelecer o conceito dos quanta em ação, eram para eles as portas de entrada ao maravilhoso mundo das partículas subatômicas. Há pouco tempo, apenas dez anos antes, o grandalhão bigodudo Ernest Rutherford descobriu o núcleo do átomo, com a colaboração dos assistentes Ernest Marsden e Hans Geiger. Através do núcleo do átomo Niels Bohr e seus meninos navegavam com audácia que perturbava uma das maiores figuras da física de todos os tempos, Albert Einstein.

O criador da teoria da relatividade fazia aberta oposição à escola de Copenhagen por não aceitar dois princípios básicos da mecânica quântica: o princípio da probabilidade, enunciado por Niels Bohr, e o princípio da incerteza, criado por Werner Heisenberg. O que estava em jogo era o determinismo consagrado pela física clássica, que descrevia o Universo como uma grande máquina, programada por Deus. Acreditava Einstein que os fenômenos físicos implícitos nos princípios da probabilidade e da incerteza qualquer dia teriam explicação e se revelariam determinados: o indeterminismo (ou a elevação do dado estatístico à condição de linguagem científica) não pode ter lugar nas searas da ciência, porque isso equivaleria a negar o próprio Deus.

Os maravilhosos anos 20, cheios de surpresas, de descobertas que revolucionavam o conhecimento humano sobre as leis que regem a Terra e o Universo infinito, iam embalados ao som do jazz e nas utopias de tantos agrupamentos humanos que em Paris, em Nova York ou em São Paulo investiam nas idéias modernistas, negando formas e conceitos em favor de novas formas e novos conceitos. Já tínhamos o construtivismo, o cubismo, o surrealismo. E no anedotário desse universo modernista estão inseridas as fantásticas discussões de Einstein e Niels Bohr. O descobridor da relatividade, conta a tradição, certa vez observando os internos que passeavam pelo pátio de um hospício, teria dito: “Ali estão alguns loucos que não se preocupam com a física quântica”.

Além de farpas lançadas aqui e acolá, estava o trabalho intelectual desses gênios que, em simpósios ou congressos, confrontavam idéias e novos modelos matemáticos para provar algo ou contestar alguma coisa. O brilho dessas inteligências era intenso e iluminou aquela época de pioneirismos e de sonhos. Porém, década seguinte, esse clima onírico e festivo foi aos poucos dando lugar ao pesadelo que só terminaria após o seu apogeu: a destruição de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Foi longo e duro esse caminho que substituiu sonhos e utopias pela necessidade urgente da elaboração de um novo sistema ético. O mundo jamais seria o mesmo, depois da Segunda Grande Guerra, pois o ser humano alcançou a capacidade terrível de destruir a própria Humanidade.

Teatro & Ciência

E 1998, quando interpretou o monólogo de Gabriel Emanuel “Einstein”, Carlos Palma deu início ao projeto Arte Ciência no Palco, com a colaboração de Adriana Carui.

Entendendo que “o teatro possibilita pensar a ciência e construir uma dimensão nova na cabeça do público”, o grupo Arte Ciência afirma sua proposta: “investigar a relação da arte e da ciência é nosso objetivo. Através do teatro, com sua imensa capacidade de envolver, emocionar e provocar, procuramos traduzir pelo ´sentir´ e pelo ´pensar´ os conflitos éticos da ciência, despertando o público para as responsabilidades e conseqüências dos avanços da ciência na vida das pessoas. A evolução tecnológica é de todos nós. Seus resultados fazem parte de nosso dia-a-dia. Compreender seus princípios é fundamental para uma perfeita harmonia entre o indivíduo e a imensidão do universo”.

“Einstein”, a peça de estréia, deu o tom da busca: apresentar os gênios da ciência do século 20. Homens que, com suas descobertas, transformaram o conhecimento que o ser humano tinha do Universo e contribuíram para avanços tecnológicos que mudaram radicalmente o cotidiano das pessoas, em todos os cantos do Planeta Assim, na peça de estréia, Einstein é apresentado expondo suas idéias sobre a ciência e sobre a vida enquanto se prepara para um jantar. O texto saboroso e a ótima performance do ator (Carlos Palma), foram belas surpresas Mas, aliado às qualidades do espetáculo, para o êxito da obra sem dúvida atuou o fascínio que exerce sobre a imaginação humana a física moderna.

O grupo começou a tomar forma definitiva no espetáculo seguinte, quando Oswaldo Mendes e Selma Luchesi vestiram a camisa do projeto na encenação da peça de Michael Frayn “Copenhagen”.

Desse modo, o repertório estabeleceu suas bases sobre figuras exponenciais e contraditórias da nova física: Einstein, Bohr e Heisenberg, Porém, o texto de Michael Frayn não aborda a época dos entusiasmos pelas descobertas que marcou de brilho e festas a Copenhagen dos anos 20, e sim a fase negra, quando tais descobertas contribuíam para a criação da bomba atômica. O mestre, Niels Bohr, estava em trincheira oposta à do seu mais genial discípulo, Werner Heisenberg. Continuava morando na Copenhagen ocupada pelos nazistas e tinha a atenção voltada para além do Oceano Atlântico, para os Estados Unidos, onde estavam reunidos físicos da maior envergadura no projeto da criação da bomba. Era, neste caso, a “bomba do bem”, arma para os aliados derrotarem o demônio nazista. Por seu lado, Heisenberg chefiava o projeto atômico alemão, visando à produção da “bomba do mal”, que poderia propiciar a Hitler o domínio do mundo. E essa função ( e esse maniqueísmo) maculou o nome do grande cientista na História. Seu provável argumento de que estaria apenas propiciando a defesa do seu país e do seu povo, não de Hitler, não foi considerado.

“Copenhagen”, de Frayn, aborda um encontro que realmente aconteceu entre os dois cientistas, em 1941. Sabe-se que Heisenberg foi a Copenhagen e visitou Bohr. Sobre o que conversaram, é um mistério que nenhum deles revelou a ninguém. Mistério que Michael Frayn procurou invadir por meio de hipóteses poéticas, criando um diálogo sobre o que poderiam ter conversado, incidindo as idéias, necessariamente, nas questões éticas. Foi o encontro de dois “Prometeus” modernos: cidadãos comuns que, de repente, se revelam divindades arcaicas, com poder de vida e morte sobre a Humanidade.

A bela encenação de Marco Antônio Rodrigues, o alto nível dos intérpretes e a excelente qualidade do texto concorreram para a consolidação do projeto Arte Ciência no Palco, que vem ao longo desses anos desenvolvendo intensa atividade, resultando em montagens de importantes espetáculos, como se pode atualmente conferir no Teatro João Caetano (SP), onde o grupo apresenta parte do seu repertório.

A Dança do Universo

Além da peça que inaugurou o projeto, “Einstein”, e daquela que o consolidou, “Copenhagen”, a mostra apresenta uma adaptação da obra de Julio Verne “20.000 Léguas Submarinas” para crianças; a peça de Peter Parnell “E Agora, Sr. Feynman?”, sobre Richard Feynman, ganhador do prêmio Nobel de Física de 1965 pela descoberta da nanotecnologia; e a peça de Oswaldo Mendes “A Dança do Universo”, inspirada no livro de Marcelo Gleiser. Embora não incluídas na mostra, constam ainda do repertório as peças “Quebrando Códigos”, de Hugh Whitmore, sobre o matemático Alan Turing, o pai da moderna computação, “Perdida”, de José Sanchis Sinisterra, que é uma ficção bem humorada sobre os paradoxos da unidade espaço-tempo, e o espetáculo para crianças “Da Vinci Pintando o Sete”, de Francisco Alves, que explora “o lado inventor do gênio da pintura”.

Começando pelo anúncio dos “mitos da criação” e recorrendo a um impossível encontro do poeta romano Lucrécio com o africano Santo Agostinho, o ator e dramaturgo Oswaldo Mendes propõe, com “A Dança do Universo”, uma jornada pela história do conhecimento científico ocidental – conhecimento sempre ameaçado pelo seu oposto simétrico: o obscurantismo, que se manifesta através da censura ou de “tribunais do Santo Ofício”.

E como primeiro exemplo desse embate crucial de luz e trevas, traz à cena o físico brasileiro Mario Schenberg, proibido de lecionar pelos militares que estiveram montados no poder por 20 anos. Na obra, a censura militar é ponte para a Santa Inquisição, que se manifesta num suposto debate entre Galileu e Kleper. Desse modo, o autor vai discorrendo sobre os gênios, suas idéias, suas dúvidas e seus embates com meios retrógrados, resistentes às mudanças e às transformações. E o faz num exercício de estilo à moda de Brecht, com a narrativa sendo construída por fragmentos poéticos e música, com o jogo teatral inteiramente desvelado.

Na verdade Oswaldo Mendes concentra-se mais nos traços distintivos da personalidade de cada cientista abordado e não exatamente nas suas teorias ou suas contribuições ao conhecimento científico. Esse procedimento realça a humanidade dos personagens, que, conforme diz o autor, são “homens apenas, não deuses, ainda que a maioria não se ofendesse se os chamássemos de deuses”. E ao humanizá-los, encurta bastante a distância entre eles e o espectador, que é, assim, estimulado a ir em busca do conhecimento científico.

A direção de Soledad Yunge dá agilidade e leveza ao espetáculo, que os atores de Arte Ciência no Palco realizam com alegria e prazer.



Sebastião Milaré


[Foto: "A Dança do Universo"]
 
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