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 Crítica > Crítica > Opinião crítica de Sebastião Milaré.

MUITO BARULHO POR QUASE NADA


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O Grupo Clowns de Shakespeare, de Natal (RN), faz a festa no Anchieta, em São Paulo.
A alegria cheia de cantos, danças e cores que domina o palco do Teatro SESC-Anchieta nas apresentações dos Clowns de Shakespeare, de Natal, não é a única qualidade do grupo ou do espetáculo “Muito Barulho por Quase Nada”. Isto porque a própria alegria é o resultado das muitas qualidades tanto do grupo quanto do espetáculo.

Haverá, para o público paulista, certamente, a lembrança daquele “Romeu e Julieta” que o Grupo Galpão de Belo Horizonte apresentou há mais de uma década, sob direção de Gabriel Vilella, tornando célebre o espetáculo, consagrando o Grupo e o Diretor. A lembrança não é devida à “mera coincidência”, uma vez que o co-diretor de “Muito Barulho por Quase Nada”, Eduardo Moreira, é figura de proa do Grupo Galpão e foi o intérprete do Romeu naquela famosa montagem. A ele deve-se, provavelmente, a linha geral do espetáculo, que lança mão de técnicas circenses e o ilumina com inúmeras canções regionais.

Mas, o co-diretor, Fernando Yamamoto, que é um dos fundadores e principais líderes do Grupo Clowns de Shakespeare também colaborou, certamente, para que o espetáculo se enriquecesse com elementos da velha comédia popular nordestina, dando ao Shekespeare o sotaque e a luminosidade da cidade dos Reis Magos, que é a Capital do Estado do Rio Grande do Norte.

Essas impressões se confirmam na breve apresentação constante do programa: criado há dez anos, o Grupo “vem, desde então, desenvolvendo uma investigação com foco na construção da presença cênica do ator, a musicalidade da cena e do corpo, e teatro popular de comédias”... Afirma, ainda que “a técnica do clown está presente na sua estética, seja na lógica subvertida do mundo, seja na relação direta e verdadeira com a platéia”... Essas qualidades expressivas do clown, todavia, são apresentadas em cena numa inquestionável fusão com os personagens pícaros do imaginário nordestino. A lógica subvertida é nota característica dos heróis (ou anti-heróis) da comédia popular e dos cordéis nordestinos, embora não necessariamente pelos mesmos motivos ou impulsos que conduzem os personagens de Shakespeare a subverter a lógica. E nessa diferença despontam as peculiaridades clownescas desses atores.

Não quero com isso dizer que a encenação deixa de ser “fiel” à obra do bardo. Pelo contrário: capta-lhe a graça, a ironia sobre as funções sociais de cada um deles, não as levando muito a sério, até porque os próprios personagens não se levam a sério. A fina crítica do poeta às fraquezas humanas lá está. Assim como lá estão os golpes baixos de um e a possível grandeza do outro. Mas tudo bem condimentado no tempero nordestino.

No elenco homogêneo, onde todos cantam, dançam e conduzem com muita graça os tipos que representam, cabe destaque a Marco França. Com maravilhoso jogo de cena clownesco, sem se fixar em um tipo específico de graça, recorrendo às vezes ao melodrama, outras ao musical, ele revela o domínio de técnica camaleônica peculiar, especialmente nas passagens de um estado (ou estilo) ao outro. Porém, todos eles, atores e atrizes, revelam domínio cênico, conduzem o interesse da platéia e realizam um belo espetáculo, onde a comédia, o canto e a dança dialogam com empolgante entusiasmo.

Contribuem para a beleza e o ritmo do espetáculo a direção musical de Marco França, a iluminação de Rogério Ferraz, os cenários, os figurinos e os adereços de João Marcelino. A soma de tudo isso é um presente que o Rio Grande do Norte envia a São Paulo. E que nós, paulistas, agradecemos de coração mais do que alegre.



Serviço:
“Muito Barulho por Quase Nada” fica em cartaz no Teatro SESC-Anchieta é o dia 9 de outubro, às sextas e sábados às 21 horas, domingos às 19 horas.


(Foto: Marco França)
 
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