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JOÃO DENYS: PULSÕES RENASCENTISTAS.


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João Denys: a marca das diferenças por nossas diferenciações.


Reconhecido muito mais pelos prenomes do que pelo familial da hereditariedade, ao contrário dos consagrados autores nordestinos, que se orgulham exultando seus sobrenomes, a marca da diferença em João Denys poderia (re)começar por aí: pelo avesso de tradições tão brasileiramente nordestinadas. Diferença das diferenças. Avessos agrestes. Sertões desrealizados. Perversos nordestes.
E por essa diferença entre diferenças surgiria o imaginário de nossas contradições. Mais do que apenas replicantes ambigüidades. Dele, João Denys, e de seus errantes hermeneutas, dentre os quais ruidosamente me incluirei. Por que? Além dos tempos e espaços dos abismos.
Gestamos dois livros em conjunto, livros enquanto objetos de confronto em artevida, letras por imagens, grafismos em bricolagens, metáforas em reconfigurações. Livros talvez sujeitObjetos. Ignorados pelos senhores das letras nacionais. Desconhecidos pelos internautas. No primeiro, ARRECIFE DE DESEJO (Rio de Janeiro, Leviatã Publicações, 1994), a capa frontal insinuava múltiplas leituras entre o negro registro das palavras Recife e Desejo em consonância com o campo alaranjado e as letras vermelhas do A R D E. Labirintos. Diferenciações.
Da segunda parceria bem melhor arrojada – OUTROS ORF’EUS (RJ, editora Blocos, 1995) – o projeto gráfico, capa, ilustrações de João Denys desafiavam o leitor com maior número de inversões e até possessões. O sistema de letramento produzido por J.D. explodia e ao mesmo tempo implodia convenções livrescas, acadêmicas, burocráticas. Com entrelinhas em dionisíacas transgressões, os sete vezes sete roteiros de Oswald de Andrade perfuravam a cosmogonia de Francisco Brennand. Ousadias imprevisíveis. Como quase tudo em João Denys: antropofagicamente.
Suas produções ampliando horizonte de expectativas. Bacharel em Comunicação Visual pela Universidade Federal de Pernambuco em 1981 – mas poderia ter sido em qualquer locus do multiverso – , J.D. já percorrera quase todos os caminhos cruzados da criatividade em processo. Ponta de lança de seu rigor metodológico. Para não falar em perfeccionismo, palavra desgastada. Mas certeira.
Qualquer narrativa com e sobre João Denys não poderia escapar das jungianas sincronicidades. Tudo ao mesmo tempo sempre e recorrente. No ensino-aprendizagem, o mais inventivo dos mestres, o jamais diluidor de invenções. Tudo com o sabor de experiência, experimental, experimentações. Convergências para o LABORATÓRIO DO TIJOLO: desafios permanentes, surpresas diferenciais, descobertas legitimáveis. Todas as encenações – dele, com ele, a partir dele – de sua obra mais questionadora: DEUS DANADO. J.D. por outros nordestes, europas, franças e bahias de todos os orixás e demônios da teatralidade.
Tudo em pulsações narcísicas, não apenas narcisistas.
Tudo em pulsões e compulsões tão saudáveis quanto transcendentes. No menor gesto cênico e escritural João Denys projeta empaticamente seu multiverso de complementaridades e interpenetrações, de passados futuríveis, de tempos agostinianos, de corajosas antecipações, de compreensão intuitiva e racionalidade fenomenológica a mais abrangente, alargada, atualizadora. Ele sempre, recorrentemente, trans-bordando pelas margens terceiras, infinitamente, sem medo das rimas nem dos azuis desmantelos. Trans-abordando pelos labirintos da imanência mais transcendente ou das transcendências mais performativas. Em seus inesperados e inesgotáveis jogos de linguagem, metalinguagem, interações intersemióticas. Onde vai parar este rapaz? Ator-dramaturgo-encenador. E muito mais.
Professor em tempo integral do Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística da UFPE, desde 1986, lecionando as disciplinas Cenografia, Indumentária, Iluminação, Maquilagem, Metodologia do Ensino do Teatro, Interpretação e História do Teatro. E atualmente inventor do LABORATÓRIO DO TIJOLO, meta-síntese de quase todas as suas experimentações. Acima de tudo um escritor-pensador das culturas brasileiras. Reler esta última frase. Fundamento das experiências.
O menino experimental e experimentador, que nasceu em Currais Novos no Rio Grande do Norte em 13 de dezembro de 1957, continua ardendo pela cidade em trânsito desejante desde 1975. De Currais Novos ao Recife, do reciferido retornando à Europa em 1992, “onde mostrou, nas ruas da Itália e da França, o espetáculo O Círculo da Vida, uma experiência radical de alfabetização teatral, com adolescentes capoeiristas da Universidade Popular Dom Hélder Câmara”. O gestual de beleza dialogando com a pedagogia do oprimido em processo de libertação. Fundamento fundante. Pensamento pensante.
Em companhia da arte-educadora-pensadora-pensante Armia Escobar, quase todas as autosuperações paulofreirianas entre a magia do Circo-Mundo e o vasto mundo parafraseado como aldeia de Marshall McLuhan. Dois protagonistas da universalidade – Escobar e Denys – experimentando o impacto da teatralidade como teologia da libertação. Além dos dogmas, das censuras, dos comissários da politicidade. O círculo da Vida projetando-se como ritual da poeticidade sem fronteiras. Ensaios e exercícios diferenciadores.
João Denys configurando-se persona-personagem-de-nós-outros em linguagem tão singular quanto solidária no agenciamento de novas subjetividades. Língua dos três pppês: poesia/política/pedagogia. Interfaces. Interjeições. Intertextualidades. Um autor múltiplo arrebatando-se como espírito renascentista. Artesanato de sabedorias. Artesão de complexidades. Artevidente de simbologias.
Na cidade de Currais Novos de seus pais, de sua mãe Sinhazinha, retornando em espiral de desejos aos enigmas da existência coletiva. Como se um outro jovem Pier Paolo Pasolini pudesse renascer no Rio Grande do Norte atravessando sertões da memória do mundo com seu Evangelho de crueldades e esperanças. João Denys não faz nem finge uma estirpe missionária, catequista e conversora. Preferindo, recorrentemente, ignorar os salvadores da pátria culturalista. Ignorar não, pelas imprecisões do verbo em ação. Mas arrebatar e arrebentar com a megalomania de todas as mitologias messiânicas.
Ele proferindo cultivar, antropologicamente, a leitura do mundo pelo crivo do papel, letras, gestos, imagens, interpretações, delírios e dilúvios, cosmovisões e apocalipses. Em síntese aquém e além dos discursos da linear persuasão. Pela irrupção desejante de contradições e contra-DICÇÕES, cabeças cortadas rolando, sujeitos fraturados, dissonâncias cognitivas, deuses à margem dos pastos e rebentos. Sempre confirmando sua mitologia familiar: Sinhazinha, Marly, Rose Mary, Hana Luzia, João Pedro e seu pai morto. Tudo na base do mais generoso e autocrítico dialogismo: de Pasolini a Nelson Rodrigues, de Antonio Fagundes a Samuel Beckett, de Shakespeare a Marcus Siqueira e Luiz Maurício Carvalheira. Hamlet em Glauber. Cardozo em Artaud. Brecht por Leda Alves em Hermilo Borba Filho. Grotowsky em Marcondes Lima. Denys por Denys.
Todas as fusões interpenetrativas. Todas as lições de religação nos abismos. Uma trajetória tão inesgotável quanto ainda desconhecida. Tão surpreendente em seus laboratórios nas salas de aula com e sem paredes. Sem viseiras nem fronteiras. Sua civilidade incorporando-se em raras e rarefeitas crueldades. Sua amorosidade algo intempestiva, mais para Nietzsche do que para o Cristo de Mel Gibson. Sua maestria pairando sobre todos. Sem nos humilhar. Sem perdões. Sem culpas.
Tudo, quase tudo na desmedida de um paideuma – ideário de transformação humana – de quem padece e parece já ter lido e reinventado todos os livros, desconstruindo falácias de erudicionismo e reconstruindo todos os saberes de uma antropologia de nós mesmos. Contra nós mesmos.
Tantas palavras para dizer o mínimo múltiplo incomum da grandeza de um personagem que excede todos os dizeres e contradicções. João Denys: a marca das diferenças por nossas diferenciações.

Jomard Muniz de Britto,
janeiro de 2005.

 
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