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 Teatro Brasileiro > Personalidades > Homens e mulheres que transformam o teatro brasileiro em espaço de reflexão poética.

UM UNIVERSO SINGULAR


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Mescla do real e imaginário que marca a influência do cordel, é um dos aspectos óbvios dessa obra.
O que primeiro me impressionou na peça de João Denys foi seu universo muito singular. Singular em seu sentido mais amplo, de específico e diferente tanto quanto de muito próprio. O real e o imaginário, o sagrado e o profano, o passado e o futuro, a resignação e a transgressão nele entretecem seus fios e linhas, gerando estradas ou caminhos imprevistos e imprevisíveis.
De fato, ao abrir-se a cena vemos de início uma grande sala de visitas de uma casa de fazenda, com mesas, máquinas de costura, bancos com almofadas de rendas de bilros, roupas e tecidos para costurar, quadros de santos, folhinha e relógio nas paredes entre as janelas e porta ao fundo. Tudo parece remeter à realidade cotidiana, inclusive a personagem em cena, América, costurando um longo manto azul. Mas no minuto seguinte irrompe pela cena a filha Soledade, com “meia máscara de dor” no rosto, trazendo nas mãos ensangüentadas a cabeça de uma jumenta, degolada pela irmã Das Dores – que vai ser punida pela mãe tendo a mão decepada por ter matado sua “mãe de leite”.
E aquele universo começa a desdobrar-se ante nossos olhos: o espaço confinado de uma vida agoniada em uma região em que “tudo vem a dar em nada”, que é o daquela mãe viúva e meio cega, sempre chamando pelos vinte filhos mortos, e que fez a promessa de manter “castas, virgens e santa” as duas filhas que sobreviveram e com ela ali vivem cumprindo essa penitência. O tempo, igualmente imóvel, que só passa nas folhas arrancadas da folhinha, mas não para as que estão ali costurando roupas, sem saber sequer para quem, mortalhas e mantos da Virgem. Por mais que América sonhe com uma boiada, vaqueiros, cantigas, cheiro de gado, na realidade “não há nada, tudo em torno é seco, cinzento, ardendo, nada ali se mexe”. O mundo só lhes chega pela presença dos Coros de Mulheres que entram progressivamente em cena - sua presença ampliando o espaço/ tempo ao mundo exterior, ao mundo lá fora. Pelas primeiras a entrar com seus fuxicos a visão se amplia para incluir outras mulheres sem marido que “saem desembestados pelo mundo atrás de trabalho, de terra, às vezes morrem, às vezes nunca retornam, às vezes montam família em outro lugar melhor ou entram no cangaço”. E elas ali ficam “sem saber o que é descanso ou sono”, lutando para “ser donas de sua terra e de seu relógio”, tendo que se defender como podem, com faca, facão e rifle, quando alguém fica de olho em suas terras, nas virgens que têm em casa, no olho d’água que não seca em suas terras. Mundo que é também o de um povo explorado, que “paga caro por um litro de farinha”, e vive espremido entre o cangaço e a polícia mancomunada com os coronéis “fazendo cachorrada”, apropriando-se de terras e de gado alheios, estuprando donzelas, torturando e matando.
Ao lado do real que assim vai sendo retratado, dominado pelo sobrenatural, em que até um argueiro no olho é motivo de apelo aos santos, infiltra-se também o imaginário popular que vê na própria América alguém em cuja casa querem “botar fogo” porque ela “fala com os defuntos” e “tem parte com o demônio”. Imaginário que cresce com a entrada das Velhas Cegas Sanfoneiras, trazendo os folhetos de cordel que cantam/ contam as figuras, casos, fatos, histórias que marcam a imaginação popular e pelos quais se pode “fugir para outras eras, navegar noutros tempos”. É com este real imaginado e fantasioso, nesse espaço e tempo ampliados, individual e social caminhando pari passu, que surgem também os sonhos das duas virgens, de ter um vestido igual ao das outras mulheres, de ter um homem, de sair daquele espaço fechado, sem ter que apenas “ver o tempo passar, passar”, só lhes restando confundir seus pontos e agulhas com suas feridas e lágrimas.
Súbito, no “4º Mistério” dessa paixão e morte sem Cristo, um corte ou ruptura: as filhas matam, ou vêem morrer a mãe. Abrem seu quarto trancado a sete chaves, apossam-se de suas armas e de seu bornal com “pilhas de folhetos, dinheiro e perfumes”, tiram suas meias máscaras e saem para o mundo, ao encontro de outros homens e mulheres.
Nos mistérios seguintes o fato vai ser contado e recontado pela Menina-Poetinha, sua testemunha, que o narra a cada vez de maneira diversa: na 3ª Hora, para as Mulheres da Irmandade, vai narrar realisticamente como América foi morta por “10 homens da polícia da capital”; na Hora 6ª, diz ao Coro das Mulatas e Caboclas que foram os “cangaceiros, sob o comando de Lampião” – não importando que ele já tenha morrido há muito, pois seu relato tem tal força que a própria América se faz presença na cena e diz que suas filhas foram embora e não deram mais notícias, que Lampião vive agora no estrangeiro e só ela ali está com seus 20 filhos guerreiros mortos; à Hora 9ª, para as Mulheres Filhas de Maria, a Menina-Poeta já conta como viu as filhas matarem a mãe e a seguir, por castigo, virarem uma porca e uma cachorra, e América reaparece e conta que colou de novo a própria cabeça cortada e ali está, bem viva, que “não morre nunca porque está na cabeça de todos, na cabeça do mundo”; nas Vésperas, finalmente, surgem as Mulheres ligadas ao Poder – as do Juiz, do Delegado, do Coronel. A elas a Poetinha diz que América “suicidou-se”, mas esta se faz presente mais uma vez para afirmar que “não acata juiz, padre ou coronel”, que “seu patrão é Jesus Cristo”, que suas filhas são “as dores e a solidão”, e que ali abriga e abrigará sempre “o resto de gente desiludida, fugida do governo, com fome, com sede, medo e vontade de trabalhar”.
A peça termina com o Coro das Mulheres Grávidas, passando ao fundo com flores, e com elas o perfume que é “cheiro de papel de romance guardado por muitos anos num bornal bordado”, enquanto América costura e “o barulho de sua máquina parece uma rajada de metralhadora”.

Por que sentimos necessidade de fazer esta síntese? Para ultrapassar este 1º momento, de impressão, não ver na singularidade sentida apenas seus aspectos mais óbvios e imediatos: a mescla do real e imaginário que marca a influência do cordel, ou a marca da religião e do sagrado na vivência e na imaginação popular, ou mundo sóciocultural nordestino, inclusive o do cangaço e, sobretudo, o do universo feminino.
Pois em um 2º momento, de reflexão, a peça começa a mostrar toda a sua riqueza. Uma riqueza que não se revela de imediato. Aliás, a própria estrutura da peça se faz em oito “mistérios”, remetendo às etapas ou passos da paixão e morte de Cristo e/ou lembrando que o “mistério” ou drama medieval que encenava episódios bíblicos, ao teatralizar um ofício ou ato religioso visava a fazer ver “a verdade secreta”, trazer uma representação abrangente da vida humana, ligar o sobrenatural ao realismo mais trivial e mostrar uma ação transformadora no espaço e no tempo.
Um espaço em que avulta a presença feminina, não só no fato de todas as personagens serem mulheres, de diferentes gerações, tendo lembradas ou marcadas suas transformações no tempo e no cruzamento tempo / espaço que marca as linhas de sua evolução: a mãe-matriarca e dominadora, as filhas que só sabem falar o que apreenderam com a natureza, mas em dado momento – emergência do feminino que remete ao plano histórico-social das últimas décadas - saem do espaço privado para o espaço público, para o mundo, em busca de conhecimento e ao encontro de outros, homens e mulheres. Ultrapassando a dicotomia tradicional e redutora que só vê na mulher a puta ou “pecadora” (que as narrações da Menina caracterizam) ou a “santa”, virgem e casta a que as obriga a mãe e o contexto social de Angélicas, Amálias e Virtuosas. América, a personagem central, tem suas raízes fincadas na Europa, seu berço natal; as filhas cortam em parte essas raízes, esta cabeça dominante, mas ao sair para o mundo em busca de um conhecimento novo (ler-escrever) e de uma vida nova, inserida na realidade do mundo, levam da mãe as armas, os recursos, os perfumes e os folhetos de cordel - este imaginário que forma o variado tecido de toda uma cultura e que vai a seguir matizar as falas da geração–Menina que testemunha os fatos como fenômenos situados e vai se projetar nas Mulheres Grávidas, a geração por-vir, já impregnando o ar com suas flores e seu perfume.
Na idéia das gerações que não só retratam saltos, mas fazem o salto, o compromisso entre o individual e o social, e os movimentos da História. Se história, mudança: o fato mostrado é drama, o pensamento/visão nele mostrados são ação e fazem ação. Fatos e pensamento, sincronizados e assimétricos, apreendem e expressam uma realidade que não é apenas espelhada – pois se assim fosse, sua carga dramática e o próprio apelo permanente ao sobrenatural poderiam induzir à inércia, ao fatalismo, ao conformismo, não permitir uma abertura ao futuro. Uma abertura: quer na Menina que observa os fatos e os expressa com um imaginário de matrizes múltiplas, que vão de um realismo que retrata o contexto a uma imaginosa fantasia que ignora o tempo e o real a ponto de dar vida a fatos e figuras, e remetê-los à permanência do imaginário (“eu não morro porque estou na cabeça de todos” diz América), ou encaminha à promessa real que surge com as Mulheres Grávidas e com a costura de América, cuja máquina faz lembrar as “rajadas de metralhadora” de todo novo e possível salto ou ruptura.
Também neste viés histórico-social a visão de mundo do Autor, o choque de seu eu interno e seu eu social, sua visível necessidade de atravessar as fronteiras secretas de sua região: no reiterado, insistente e permanente apelo aos santos, há mais que a presença do sagrado e da religião, há o excesso ou desmesura que fala de uma alienação – termo ora em desuso no discurso mas não na prática social. Uma alienação que joga América no abismo do pessimismo (“Eu sou uma lacraia”), e da desilusão, limitada a sonhar, ou a falar/ conviver com os mortos, mesmo conhecendo ou entendendo a luta pela sobrevivência, que a faz receber sempre os peregrinos com água e comida e dar guarida a toda essa gente “com fome, sede, medo e vontade de trabalhar”. Abismo do qual suas filhas só se livram com um corte ou ruptura violentas.
Talvez daí a escolha estilística do Autor, não se atendo ao um teatro-espelho, ou a um teatro social, de protesto, que com sua análise redutora e intelectualizada por vezes não dá espaço ao desmesurado, ao heterogêneo, ao reversível. Nele poderiam ser descritas as contradições e ambigüidades que expressam a diversidade do social. Mas é o símbolo que pode denunciar seus vazios e o potencial gerador do que aí fica elíptico. Do símbolo surge o transbordamento do significado, a extrapolação daquilo que ele mesmo designa e que a síntese da peça, acima, bem ilustra: não são só os nomes que falam de uma América enraizada ou em prolongamento de uma Europa natal, tendo por filhas a solidão (Soledade) e as dores (Das Dores), inseridas em um repressivo contexto pseudo-religioso de Angélicas e Virtuosas, ouvindo o passado e a tradição, as figuras e fatos nas Velhas Sanfoneiras; ou, feito o corte, completada a ruptura, projetando-se para o futuro, na Menina que passa a conduzir a ação e ainda e sempre traz América à cena, e nas Mulheres que fecham a ação cênica. O panorama / o tema condicionam a perspectiva e falam de uma transição: essa América prisioneira de um subdesenvolvimento em que não se vive, apenas se sobrevive ou subsiste (sub-existe), é lutadora e desiludida, mas não desesperada ou desistente; suas filhas, em que pesem a solidão e as dores, rompem com o estabelecido, com o que significava dominação e submissão, e ousam sair para o mundo. A Menina-Poeta vê, registra e interpreta esse fato, a partir do qual vai surgir um pro-jeto ( algo “lançado adiante”). Nas falas da Menina-Poetinha, onde a verdade? Ou a verdade é o amplo horizonte dos possíveis, o espaço novo de invenção e criação? Pois quando o “poder” crê que América está morta (“suicidou-se”) ou vencida, ela reaparece, insubmissa e altiva, e põe-se de novo a “costurar” – e a sua ação é sublinhada pelas Mulheres que passam, grávidas de futuro.
O símbolo é filho da ruptura (embora hoje também haja símbolos alienadores). Por isso a troca ou o salto, a transição, quem as percebe são os artistas, os inovadores. São eles que têm os olhos voltados para aquele horizonte dos possíveis, são eles que vêem e sentem, ainda no ar, impressentidos, as flores e o perfume que acompanham as mulheres grávidas. No símbolo é possível reencontrar a pluralidade do existente, as alternativas sempre possíveis, a abertura ao imaginário da invenção e da criação.

Perspectiva que nos leva a um 3º momento: o da valoração da obra, por ver nela bem mais que a produção “localizada” de um escritor que usa sua capacidade de criação para mostrar o ser humano da região em que vive. Sua valorização dessa região nordestina é visível e ostensiva nas diferentes características físicas e culturais que textualmente cita e, sobretudo, nos folhetos para ler/ ouvir/ chorar/ compreender/ decifrar/ mirar / contar/ recontar/ cantar/ apreender/ investigar/ temer/ um espaço em que “tudo vem a ser nada”, mas também um tempo de mudança, que mostra que “tudo na terra tem fim”.
Características que se ampliam em um imaginário que fala de uma cultura muitas vezes marginalizada sob o rótulo de “cultura popular” – como se toda cultura autêntica não fosse popular, isto é, própria de um povo. Inconsciente ou contraditoriamente denunciando como “impopular” a autodenominada cultura “de elite” - termo que encerra em suas raízes etimológicas a pretensão de “saber ler / saber falar”(logos), e por isso ser “eleito” ou poder “dar lições”. Portanto, mais que buscar ou assinalar possíveis acentos brechtianos, de sentido político-social, ou influências artaudianas na ligação com o sagrado e na crueldade de cenas ou imagens, importou-nos enfatizar a singularidade de um Autor que nos faz lembrar que uma nação é também um estilo, uma perspectiva, uma alma, captados e expressos por aquele que é um bom Autor.
O verdadeiro artista é um ser coletivo, é menos individualista porque é ex-pressão do contexto que o cerca. Talvez daí me ocorra um pequeno reparo ao título que, a meu ver, à primeira vista ilude e não fala de toda a dimensão do rosto e do rasto de uma América cujos traços, linhas e fios se entretecem e se definem na obra. A Menina, a meu ver, é também a expressão de uma cultura “em crescimento”, que não se fecha no beco sem saída da intranqüilidade e do desespero, mas busca na invenção, na criação, trazer à cena e fazer (re)ver essa América em seu contexto, enfrentamentos e alternativas reais/ imaginárias.
Se cultura é a extensa rede de relações dos seres humanos entre si e com seu mundo, ela é um fenômeno vivido antes de ser mentalizado e expresso. O escritor que escolhe não desertar de sua realidade – como é o caso de João Denys - busca compreender e não apenas espelhar essa realidade, a atual ou real e a possível. Consciente de sua responsabilidade de escritor, de que seu compromisso não é apenas estético, mas também ético. De que um fenômeno nosso, brasileiro, precisa de um ponto de vista nosso – pois integrar-nos neste mundo planetizado em que hoje vivemos exige que nele estejamos íntegros, isto é, inteiros, que nele sejamos um nós identificado e identificável. De que só sabendo como somos podemos sonhar, planejar e agir no sentido de como podemos vir a ser. De que te-atrium é lugar de ver e fazer ver. De que somos História, somos espaço e tempo – como esta nossa imensa América, hoje, mais do que nunca, grávida do futuro.



Maria Helena Kühner
Dramaturga, ensaísta e pesquisadora


Foto: Junior Sampaio e Leonardo Brício em "Deus Danado", de João Denys. Valongo, Portugal (2004).
 
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