O novo espetáculo do Teatro Autônomo, "Deve haver algum sentido em mim que basta", lembra-me Tarkovski, na função árdua e delicada de esculpir o tempo, vendo-o fluir em um nunca acabar de aconteceres fortuitos, que moldam os dias e consomem a vida. Lembra-me, também, a náusea de Sartre pelo descaso de Deus com a miserável existência humana. E lembra-me a dor fingida do poeta que deveras a sente, mas dela procura escapulir através dos versos, de palavras que isoladas nada significam, mas no vórtice da fuga à realidade cotidiana, têm poder galvanizador inigualável.
O que Jefferson Miranda e seus atores realizam em cena é uma abordagem poética do cotidiano. E o fazem através do naturalismo, mas com vigor de artistas capazes de penetrar mistérios do espírito, chegando à esfera do ambíguo por meio da descrição do óbvio. Logo damo-nos conta de que o naturalismo por eles apresentado não passou de código e o óbvio... na verdade é só a máscara.
O espaço cênico lembra ambiente doméstico japonês, com paredes e teto de madeira e papel. O piso, coberto de folhas secas, denuncia um outono (entardecer?) permanente. E logo às primeiras cenas, quando pessoas se aglutinam em torno de um assunto e se dispersam por desvios de idéias, de imagens, de pulsações, nota-se que a naturalidade é densa coleção de clichês do cotidiano, atrás da qual se deslindam coisas inefáveis. Justamente por serem inefáveis é que essas coisas se servem de clichês para se tornarem perceptíveis. Nada é o que parece ser – será, quando muito, seu reflexo. Dizia Nelson Rodrigues “a vida como ela é”, sabendo muito bem que a vida é de infinitas maneiras e que utiliza clichês para expressar as infinitas maneiras de ser.
Cada criatura que, em cena, vai tecendo sua história e nos enredando em seu universo tem um tipo psicológico básico, que a torna um ser reconhecível. O mesmo esquema define todos os personagens. Eles se cruzam, se amam ou se desafiam, tornando momentaneamente comuns as suas histórias. Mas, à possível identidade sucede imediato estranhamento.
Através das diferenças, não das semelhanças, é que esses seres conseguem se comunicar. Suas palavras não guardam mistérios: sempre diretas e objetivas. Ao se repetirem três ou quatro vezes, mostram a mesma cena por diferentes ângulos, concedendo diferentes maneiras de ver e interpretar tanto o código quanto o fato por ele descrito.
E a cena vai adquirindo nitidez, vai se convertendo em unidade conflituosa. O real e o irreal se confundem sobre o chão de outono. Os desejos são meras lembranças e não urgências dessas pessoas carentes, que buscam afeto umas nas outras, mas não conseguem sair do individualismo. A solidariedade é matéria escassa nesse mundo, não porque as pessoas não sejam solidárias, mas porque são extremamente solitárias.
O próprio cenário “respira”, a certa altura, movendo-se, dilatando-se, destruindo a ilusão da imobilidade, a ilusão de um cômodo onde acontecem situações dramáticas cotidianas. Tudo se move partindo da familiaridade do dia-a-dia para o desconhecido, para o mistério do porvir. E as pessoas se encontram, repetem gestos, palavras, frases... mas, os pensamentos expressos nada concluem. Há sempre uma insatisfação em face da realidade e uma expectativa do que poderá surgir logo mais em cada uma dessas vidas. Tudo se desenvolve tão naturalmente que o espectador se deixa envolver, fica tentado a participar das conversas, que parecem repetitivas, mas na verdade vão fermentando as emoções.
O poema cênico criado por Jefferson Miranda e seus bravos atores clama pela sensibilidade do espectador. Ela deve estar desperta para que a fruição vá além do mero contemplar e se constitua em diálogo verdadeiro com os intérpretes/criadores, num universo muito além das folhas secas que cobrem o chão (interminável outono) ou das paredes orientais que iludem o espaço: um universo que só se manifesta dentro do peito. Diálogo de coração e de alma, como poucas vezes o Teatro consegue estabelecer e quando o consegue se revela grande e eterna arte, generosidade dos deuses para com os mortais.
Nota: "Deve haver algum sentido em mim que basta" estreou no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, em julho de 2004. Tem se apresentado em várias outras cidades e em breve abrirá temporada em São Paulo. O evento comemora os 15 anos de existência do Teatro Autônomo. No elenco: Adriano Garib, Diogo Salles, Gisele Fróes (foto), Miwa Yanagizawa, Otto Jr.. Criação do Teatro Autônomo. Dramaturg Flavio Graff. Cenografia e figurinos Jefferson Miranda e Flavio Graff. Iluminação Renato Machado. Música Felipe Storino. Direção de produção Sérgio Saboya.
|