Novidades
HOME 2a EDIÇÃO

Home 1a Edição
Editorial

 

Atualidades

Espaço Aberto
Abrindo o Jogo
Minha Crítica
Crítica à Crítica
O Olho que Me Vê
Via ant@mail

 

Serviços

Festivais
Publicações
Links de Teatro & Endereços

 

Canais Comunicantes

Cena Lusófona
Latinoamérica

 

Tema desta Edição

Renato Vianna
Biografia
Campanhas Artísticas
A Última Encarnação do Fausto
Obras

 

O Teatro
Brasileiro
1918/38

Grandes Figuras
Grupos
Revisteiros
Presença Portuguesa

 

O autor deste site pretende não apenas divulgar idéias, mas sempre que possível trocar idéias.
Os interessados, por favor, entrem em contato através do e-mail

Atenção! Artigos ou notas assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, necessariamente, pontos de vista do autor e mantenedor deste site.

CANAIS COMUNICANTES: Cena Lusófona
 
VOLTA UMA PÁGINA <<

Quem Come Quem


O espetáculo resultante do projeto "Viagem ao Centro do Círculo", Quem Come Quem, estreou no Teatro Gil Vicente, Coimbra, no dia 5 de julho de 2000.

 

Sobre a Viagem

De início era a idéia da aventura. Como a dos navegadores dos séculos 15 ou 16, que iam à busca do Santo Graal, talvez, ou da Árvore da Vida, sob o pretexto do encontro de rotas que dessem acesso às especiarias das Índias. A utopia é igual. Há o perigo de monstros e de sereias no caminho. Há o risco do desconhecido, por esses mares nunca dantes navegados. Nossa caravela é o teatro. E nela zarpamos, partindo da Bahia rumo a Maputo, sob a bandeira da Cena Lusófona, na Viagem ao Centro do Círculo.


Foto: Augusto Baptista/Cena Lusófona.


Quem Come Quem é o resultado estético da aventura, uma breve visão cênica dessa viagem pioneira pela comédia humana de três Continentes. O quê se vê no palco não são devaneios nem abstrações e sim a tentativa de transpor ao território poético a realidade dos homens que habitam o contraditório universo lusófono. Fugimos à dissertação histórica e aos envolventes acenos do pitoresco, para observar amorosamente a alma humana.

Começa o espetáculo referindo-se à viagem, ao percurso dos homens em busca do quê? Da liberdade, quem sabe? Ou de "vida melhor". Ou da Árvore do Conhecimento. Dá-se, então, o encontro. E depois, nossas cosmogonias " pois são tantas ", num breve mergulho às raízes étnicas, ao inconsciente coletivo, para de lá emergirem os dramas pessoais e a memória de vida dos atores. Pois são esses dramas e essas memórias que fornecem os temas dramáticos. Tudo o que acontece em cena tem como ponto de partida as realidades vivenciadas. Poetas lusófonos, comentam ou fazem contraponto com sua ficção profética às referências do Real.

Isto significa que os atores não são meros repetidores de um texto alheio: vivem em cena histórias por eles mesmos oferecidas ao curioso alemão, Stephan Stroux, que os dirige tentando unir as diferentes fábulas, dar unidade ao aparentemente discrepante, de modo a criar pela síntese e por metáforas a visão de tudo o que encontrou ao longo da Viagem.

Os atores foram capturados no percurso. Não capturados pela sanha dos dominadores " pois dominadores não há " e sim pela idéia da aventura, pela sede do autoconhecimento que foi o combustível da Viagem. Cada um traz um pouco da sua sociedade. Em Leno e na Arlete, vibram a miséria e o esplendor da Bahia, a esfuziante alegria e a dura reflexão de um povo que herdou dos escravos africanos valores e estigmas. Rogério traz a vibração de um país, Moçambique, que se constrói sobre as feridas de uma guerra insana, mas preservando a dignidade dos ancestrais e um comovente amor à vida. Insana também é a guerra que há décadas corrói Angola, mas Amor de Fátima e Capitão vêm de Luanda com memórias étnicas e afetivas com que o cidadão angolano busca sobreviver à calamidade que lhe é imposta. Sem memória de guerra, mas cheio de nostalgia de territórios desconhecidos, José Évora traz a melancólica alegria de Cabo Verde, ilhas onde mora a Saudade. A princesa Bia traz da Guiné Bissau a magnífica maneira africana de resistir aos desastres de desumanos conflitos bélicos, revivendo em seu contato com o mundo os sagrados valores dos mitos arcaicos. A consciência agrária e o diálogo permanente com a terra, preservado em São Tomé e Príncipe, revivem em Ayres Major sob o olhar brilhante que contempla esse mundo de ilusões e delírios. Do concreto, da dura realidade de São Paulo, a metrópole, Simone traz o sonho e a utopia, o desejo de superar limites. Deste novo Portugal, que entre perplexo e apaixonado recompõe seus valores e os projeta ao futuro, Sofia traz o espírito empreendedor, Antônio Jorge a pureza do homem do campo, Jaime as marcas da ambígua relação colonizador/colonizado, Fernando a reflexão pessoana sobre o mistério de se estar vivo.  Já no porto de chegada, em Tocha, onde se iniciou a construção de Quem Come Quem, deixou-se capturar pela idéia Tilike, introduzindo o sotaque goiano, o desejo de romper preconceitos e encontrar sua própria natureza trazido do Planaldo Central do Brasil.


Foto: Augusto Baptista/Cena Lusófona.


Esta a equipe de criadores. O tema "quem come quem" procede da corrente antropofágica do Modernismo brasileiro, que prega a devoração ritual do que vem de fora, para que seja não incorporado apenas, mas digerido e devolvido com nossa expressão. Será esta, com certeza, a alternativa dos nossos povos neste mundo globalizado para se atualizar sem perder suas características, seus valores, sua fé. E como processo estético, é também a alternativa não de simples sobrevivência, mas de atuação e de avanço.

A Viagem foi feita. E continua. São conclamados novos navegadores para levar à frente e ampliar a idéia do nosso autoconhecimento enquanto cidadãos do universo lusófono. O espetáculo Quem Come Quem é o primeiro passo. O resultado estético pode ser aplaudido ou contestado. Mas nada elimina o feito nem diminui a importância do gesto pioneiro que o produziu.

Sebastião Milaré (Artigo publicado no programa do espetáculo)

 

VOLTAR AO INÍCIO DA PÁGINA



Ficha técnica

Direção Artística, cenografia, adereços e desenho de luz: Stephan Stroux

Elenco:
Ayres António Major (S. Tomé e Príncipe)
Amor de Fátima Mateus (Angola)
António Jorge (Portugal)
Arlete Dias (Brasil)
Bia Gomes (Guiné-Bissau)
Fernando Candeias (Portugal)
Jaime Monsanto (Portugal)
José Évora (Cabo Verde)
Melquisalem Sacramento (Brasil)
Mestre Capitão (Angola)
Rogério Boane (Moçambique)
Simone Iliescu (Brasil)
Sofia Lobo (Portugal)
Tilike Coelho (Brasil)

Dramarurgia: Sebastião Milaré
Figurinos: Ana Rosa Assunção
Assistência de cenografia e adereços: Cristina Lucas
Assistência de desenho de luz: Nuno Patinho
Produção: Cena Lusófona, A Escola da Noite, Cia. De Teatro de Braga, Teatro Vila Velha
Coordenação de Produção: Cristina Henriques
Produção executiva: Cristina Henriques, Daniela Queirós, Rui Valente


VOLTA UMA PÁGINA <<

VOLTAR AO INÍCIO DA PÁGINA

Copyright © 2002 SEBASTIÃO MILARÉ - Direitos Reservados