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CANAIS COMUNICANTES:
Cena
Lusófona
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Quem
Come Quem
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O espetáculo resultante do projeto "Viagem ao Centro do Círculo", Quem
Come Quem, estreou no Teatro Gil Vicente, Coimbra, no dia 5 de julho
de 2000.
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Sobre a Viagem
De
início era a idéia da aventura. Como a dos navegadores dos séculos
15 ou 16, que iam à busca do Santo Graal, talvez, ou da Árvore da
Vida, sob o pretexto do encontro de rotas que dessem acesso às
especiarias das Índias. A utopia é igual. Há o perigo de monstros e
de sereias no caminho. Há o risco do desconhecido, por esses mares
nunca dantes navegados. Nossa caravela é o teatro. E nela zarpamos,
partindo da Bahia rumo a Maputo, sob a bandeira da Cena Lusófona, na
Viagem ao Centro do Círculo.
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Foto: Augusto Baptista/Cena Lusófona.
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Quem Come Quem é o resultado estético da aventura, uma breve visão cênica dessa
viagem pioneira pela comédia humana de três Continentes. O quê se vê
no palco não são devaneios nem abstrações e sim a tentativa de
transpor ao território poético a realidade dos homens que habitam o
contraditório universo lusófono. Fugimos à dissertação histórica
e aos envolventes acenos do pitoresco, para observar amorosamente a
alma humana.
Começa o espetáculo referindo-se à viagem, ao percurso dos homens em busca
do quê? Da liberdade, quem sabe? Ou de "vida melhor". Ou da Árvore
do Conhecimento. Dá-se, então, o encontro. E depois, nossas
cosmogonias " pois são tantas ", num breve mergulho às raízes
étnicas, ao inconsciente coletivo, para de lá emergirem os dramas
pessoais e a memória de vida dos atores. Pois são esses dramas e
essas memórias que fornecem os temas dramáticos. Tudo o que acontece
em cena tem como ponto de partida as realidades vivenciadas. Poetas
lusófonos, comentam ou fazem contraponto com sua ficção profética
às referências do Real.
Isto
significa que os atores não são meros repetidores de um texto
alheio: vivem em cena histórias por eles mesmos oferecidas ao curioso
alemão, Stephan Stroux, que os dirige tentando unir as diferentes fábulas,
dar unidade ao aparentemente discrepante, de modo a criar pela síntese
e por metáforas a visão de tudo o que encontrou ao longo da Viagem.
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Os
atores foram capturados no percurso. Não capturados pela sanha dos
dominadores " pois dominadores não há " e sim pela idéia da
aventura, pela sede do autoconhecimento que foi o combustível da
Viagem. Cada um traz um pouco da sua sociedade. Em Leno e na Arlete,
vibram a miséria e o esplendor da Bahia, a esfuziante alegria e a
dura reflexão de um povo que herdou dos escravos africanos valores e
estigmas. Rogério traz a vibração de um país, Moçambique, que se
constrói sobre as feridas de uma guerra insana, mas preservando a
dignidade dos ancestrais e um comovente amor à vida. Insana também
é a guerra que há décadas corrói Angola, mas Amor de Fátima e
Capitão vêm de Luanda com memórias étnicas e afetivas com que o
cidadão angolano busca sobreviver à calamidade que lhe é imposta.
Sem memória de guerra, mas cheio de nostalgia de territórios
desconhecidos, José Évora traz a melancólica alegria de Cabo Verde,
ilhas onde mora a Saudade. A princesa Bia traz da Guiné Bissau a magnífica
maneira africana de resistir aos desastres de desumanos conflitos bélicos,
revivendo em seu contato com o mundo os sagrados valores dos mitos
arcaicos. A consciência agrária e o diálogo permanente com a terra,
preservado em São Tomé e Príncipe, revivem em Ayres Major sob o
olhar brilhante que contempla esse mundo de ilusões e delírios. Do
concreto, da dura realidade de São Paulo, a metrópole, Simone traz o
sonho e a utopia, o desejo de superar limites. Deste novo Portugal,
que entre perplexo e apaixonado recompõe seus valores e os projeta ao
futuro, Sofia traz o espírito empreendedor, Antônio Jorge a pureza
do homem do campo, Jaime as marcas da ambígua relação
colonizador/colonizado, Fernando a reflexão pessoana sobre o mistério
de se estar vivo. Já no
porto de chegada, em Tocha, onde se iniciou a construção de Quem
Come Quem, deixou-se capturar pela idéia Tilike, introduzindo o
sotaque goiano, o desejo de romper preconceitos e encontrar sua própria
natureza trazido do Planaldo Central do Brasil.
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Foto: Augusto Baptista/Cena Lusófona.
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Esta
a equipe de criadores. O tema "quem come quem" procede da corrente
antropofágica do Modernismo brasileiro, que prega a devoração
ritual do que vem de fora, para que seja não incorporado apenas, mas
digerido e devolvido com nossa expressão. Será esta, com certeza, a
alternativa dos nossos povos neste mundo globalizado para se atualizar
sem perder suas características, seus valores, sua fé. E como
processo estético, é também a alternativa não de simples sobrevivência,
mas de atuação e de avanço.
A
Viagem foi feita. E continua. São conclamados novos navegadores para
levar à frente e ampliar a idéia do nosso autoconhecimento enquanto
cidadãos do universo lusófono. O espetáculo Quem
Come Quem é o primeiro passo. O resultado estético pode ser
aplaudido ou contestado. Mas nada elimina o feito nem diminui a importância
do gesto pioneiro que o produziu.
Sebastião
Milaré (Artigo publicado no programa do espetáculo)
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Ficha técnica
Direção
Artística, cenografia, adereços e desenho de luz: Stephan Stroux
Elenco:
Ayres
António Major (S. Tomé e Príncipe)
Amor
de Fátima Mateus (Angola)
António
Jorge (Portugal)
Arlete
Dias (Brasil)
Bia
Gomes (Guiné-Bissau)
Fernando
Candeias (Portugal)
Jaime
Monsanto (Portugal)
José
Évora (Cabo Verde)
Melquisalem
Sacramento (Brasil)
Mestre
Capitão (Angola)
Rogério
Boane (Moçambique)
Simone
Iliescu (Brasil)
Sofia
Lobo (Portugal)
Tilike
Coelho (Brasil)
Dramarurgia:
Sebastião Milaré
Figurinos:
Ana Rosa Assunção
Assistência
de cenografia e adereços: Cristina Lucas
Assistência
de desenho de luz: Nuno Patinho
Produção:
Cena Lusófona, A Escola da Noite, Cia. De Teatro de Braga, Teatro
Vila Velha
Coordenação
de Produção: Cristina Henriques
Produção
executiva: Cristina Henriques, Daniela Queirós, Rui Valente
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