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Tema desta Edição

Renato Vianna
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O Teatro
Brasileiro
1918/38

Grandes Figuras
Grupos
Revisteiros
Presença Portuguesa

 

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O TEATRO BRASILEIRO DE 1918/38: Presença Portuguesa
 
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Presença Portuguesa

 


MARIA FALCÃO - (1874-1960)

A estréia de Maria Falcão, em 1889, no Teatro Príncipe Real, Lisboa, fazendo o Delfin em Maria Antonieta, foi coroada de êxito. Não só valeu-lhe altos elogios da crítica como sua primeira vinda ao Brasil (1890) como principal figura da companhia. A empatia sobre a platéia brasileira, popular ou intelectual, foi absoluta.

Nos anos seguintes, Maria Falcão consolidou seu prestígio artístico em Lisboa, sendo considerada pelo crítico J. Madureira "uma das grandes atrizes de língua portuguesa". Voltou várias vezes ao Brasil, em digressão, para curtas temporadas, sendo sempre recebida com entusiasmo pelo público e pela imprensa. Prolongou um pouco mais uma das temporadas, atendendo ao convite da grande Ismênia dos Santos para integrar seu elenco.


Maria Falcão - 1903.

Em 1912, foi convidada a ser a principal figura da Companhia Nacional, organizada por Eduardo Victorino, encarregada de realizar a primeira temporada dramática no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A partir dessa época, Maria Falcão "virou" brasileira.


Maria Falcão - 1959.

Foi criadora de peças de João do Rio, Júlia Lopes de Almeida, Roberto Gomes e vários outros dramaturgos brasileiros. Adorada pelo público e pela crítica. Poucas vezes voltou a Portugal. Aqui constituiu família (a filha Edithe Falcão, foi também ótima atriz), participou do Teatro da Natureza, criou companhias, foi contratada pelas principais companhias dos anos 20 e 30. Exerceu grande influência sobre as jovens atrizes brasileiras.

Por fim, Maria Falcão afastou-se do palco e caiu no esquecimento. Foi morar na periferia de Nova Iguaçu, onde faleceu aos 86 anos de idade, numa casa muito pobre, ao lado apenas da filha, Edithe, que também deixara o teatro.

 

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BEATRIZ COSTA

Grandes atores e atrizes portugueses fizeram temporadas no Rio de Janeiro, no período entre as duas guerras. Muitos ficaram algum tempo, trabalhando com atores daqui. Caso, por exemplo, de Chabi Pinheiro que, em 1928, fez temporada com Leopoldo Fróes " eram os principais atores de Portugal e do Brasil se alternando em papéis de protagonista e coadjuvante. Esse intercâmbio teve importância na consolidação do teatro brasileiro, sem perder de vista suas tradições lusas.

Porém, um dos nomes mais marcantes desse "intercâmbio artístico e afetivo" foi o de Beatriz Costa.


Beatriz Costa.
Foto de capa do livro Sem Papas na Língua.

No livro de memórias Sem Papas na Língua (Civilização Brasileira, 1975), Beatriz Costa fala da infância difícil, da atração pelo teatro, de como estreou no Eden Teatro, conduzida por Ema de Oliveira, na função de corista na revista Chá e Torradas; do apoio recebido de Raul Portela, compositor da famosa "Lisboa Antiga". Fala também da sua relação com o Brasil, onde sempre foi adorada pelo público e fez grandes amigos.

Além de muitas idas e vindas Portugal/Brasil, Beatriz Costa aqui permaneceu durante todo o período da II Guerra, organizando companhia no Teatro João Caetano, tendo Oscarito como principal figura masculina. 

Confessa na autobiografia: Durante a minha carreira de artista popular e mimada pelo público, orgulho-me de não o ter sido menos pelos meus colegas, fossem eles um Vasco Santana ou o mais humilde figurante. Nunca cortei relações com um colaborador, porque só fui ajudada e prestigiada por todos! Tenho trabalhado com artistas extraordinários, tão grandes como os maiores que aplaudi em Londres, Paris, Roma, Atenas ou Rio de Janeiro. Nunca vi nada que suplantasse uma Maria Mattos, nem fantasia que ganhasse em imaginação a um Oscarito.


Beatriz Costa e Oscarito no João Caetano.
Foto: do livro de Neyde Veneziano O Teatro de Revista no Brasil - Dramaturgia e Convenções (Ed.UNICAMP/
Pontes, 1991)

No prefácio do livro, Jorge Amado comenta: Ao terminar a leitura dos originais de Sem Papas na Língua, penso nessa mulher ao mesmo tempo jovem e madura, jovem de mentalidade capaz de compreender e estimar o moço hyppie mais prafrentex do nosso tempo, maturidade profunda de quem viu e viveu, de quem sabe, sua álacre beleza de ontem, sua tranqüila, resplandescente beleza de agora, a face e o coração. Eu a vejo rodeada de amigos, quem mais soube fazer e guardar amigos? Eu a vejo rodeada de amor, do amor do povo. Dos povos, direi melhor, povo de Portugal, povo do Brasil. Lá e cá, jamais a gente das ruas a tratou por ilustre artista, de dona, de senhora, de distante e gloriosa figura. "Senhora dona Beatriz ", só para ricos e grã-finos. Para nós, foi, é e será sempre a menina Beatriz, a Beatrizinha, nascida no ventre fecundo do povo, sua filha, sua irmã, sua mãe ao recriá-lo, poderoso de raiva, desatado em riso, invencível, no palco. Para Beatriz Costa, palco e vida foram e são uma única coisa, indivisível.

 

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ESTHER LEÃO - (1892-1971)

Atriz  e professora de técnica vocal, Esther Leão revelou-se também excelente encenadora. Sua presença no teatro brasileiro, desde meados da década de 30, foi muito importante no sentido da preservação/renovação cênica.

Portuguesa, filha de embaixador, estudou teatro com Antoine, em Paris, e construiu na sua terra uma carreira sólida, prestigiada. Mas, enamorou-se do Brasil e aqui viveu os últimos anos da sua curta e movimentada existência.

Dona Esther Leão era mulher severa, rigorosa no trabalho, mas sempre muito bem humorada. Corrigiu a voz não só de atores, também de políticos - entre estes, Carlos Lacerda. Foi sob sua direção que o Teatro do Estudante do Brasil apresentou várias elogiadas produções de clássicos e modernos.  No sentido da renovação cênica, Esther Leão contribuiu como encenadora talentosa e competente. Conforme Maria Jacintha, seus ensaios eram picadeiros, só interrompidos quando o (a) intérprete atingia ao que seu papel exigia; seus recursos para movimentação cênica eram mútiplos e de excelente projeção teatral: com a mesma segurança com que se ocupava, detalhadamente, de um intérprete isolado [...] movimentava um conjunto, dando-lhe comportamento cênico impecável. Tudo dentro de admirável equilíbrio, que talvez tenha sido a tônica da sua direção. ("Presença de Esther Leão", Dionysos, n. 25, 1978)


Esther Leão. Foto: do livro de Orlanda Carlos Magno Pequena História do Teatro Duse (SNT, 1963).

Na direção do Teatro do Estudante, dona Esther Leão dirigiu o espetáculo de estréia daquela que seria a maior atriz brasileira de todos os tempos, Cacilda Becker. O mesmo texto, Três Mil Metros de Altitude, seria novamente dirigido por Esther Leão, anos depois, com o nome alterado para Alegres Canções da Montanha, lançando outra extraordinária atriz brasileira: Fernanda Montenegro.

Embora tenha sido a lançadora de talentos que consolidariam a idéia do teatro moderno no Brasil, Esther Leão tinha clara preferência pela já consagrada Dulcina de Moraes, a quem dirigiu em diversas montagens.

A influência de dona Esther Leão foi imensa na geração dos anos 40. Com sua colaboração, o teatro brasileiro se desprendia de fato do luso-brasileiro, alcançava autonomia para buscar sua própria identidade. As carinhosas mãos lusitanas de dona Esther Leão também empurraram a criança para seu próprio caminho.

 

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