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Tema desta Edição

Renato Vianna
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O Teatro
Brasileiro
1918/38

Grandes Figuras
Grupos
Revisteiros
Presença Portuguesa

 

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O TEATRO BRASILEIRO DE 1918/38: Presença Portuguesa
 

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Presença Portuguesa

 


A Presença Portuguesa

O teatro brasileiro viveu quase um século a rejeição a si mesmo, apoiado na dupla nacionalidade: era luso-brasileiro.

Sua relação com o teatro que o gerara, todavia, foi sempre muito dinâmica. Houve um gesto de ruptura, efetivado por João Caetano, em 1833, ao criar uma companhia integrada apenas por brasileiros. Mas a reivindicação desse gesto foi no sentido de "ceda-me espaço" e não de separação de corpos.

E isto se revela claramente na relação de João Caetano com os lusitanos ao longo de toda sua carreira. Ele mesmo, preocupado com o problema da formação do ator, confessa gratidão a mestres portugueses com os quais trabalhara. Destacando Ludovina Soares. Conta Décio de Almeida Prado: Outros intérpretes portugueses exerceram influência não menor sobre o autor das Lições Dramáticas. Tal é o caso, especialmente, de Ludovina Soares da Costa, já a maior trágica de Portugal quando aqui chegou, aos 27 anos, como "primeira dama" da bem aparelhada companhia de 1829. 


Ludovina Soares da Costa, aos 55 anos, em "Joana, a Doida". (Foto: do livro de Décio de Almeida Prado João Caetano, Perspectiva, 1972)

Após o afastamento precoce do palco de Estela Sezefredo, foi a parceira mais constante de João Caetano, a única que podia enfrentá-lo em pé de igualdade, fazendo Álvares de Azevedo lamentar: "é uma miséria ver que só temos o João Caetano e a Ludovina". Já no ocaso, em 1859, ainda arrancava de um crítico jovem e hostil à "velha escola" , como Machado de Assis, palavras de genuína admiração: "A sra. Ludovina [...] compensa os desvarios da velha escola: é a trágica eminente, na majestade do porte, da voz e do gesto, figura talhada para um quinto ato de Corneille, trágica, pelo gênio e pela arte, com as virtudes da escola e poucos dos seus vícios" [João Caetano, Ed. Perspectiva, 1972].

E, a despeito de atores brasileiros surgirem, trazendo ao palco certas características interpretativas que os particularizavam, os atores portugueses detinham ainda a capacidade técnica, tão necessária aos nossos intuitivos atores. E para cá vinham as companhias portuguesas com admirável freqüência. Na volta, nem sempre todos embarcavam. Muitos por aqui ficavam e formavam companhias com outros exilados voluntários ou com "nativos". "nativos".

Assim consolidou-se o teatro luso-brasileiro. Não era lusitano, pois nele havia atores que, mesmo usando o sotaque lusitano, enlouqueciam a cena, tinham uma relação direta e cúmplice com a platéia, dispensando o formalismo português. Mas, também não era brasileiro, não só pelo sotaque lusitano, mas porque seguia os pontos de vista ideológicos (por isso, estéticos) portugueses.

Isso aconteceu até a Primeira Guerra Mundial. A partir daí, escasseou a vinda de companhias portuguesas. E grandes atores brasileiros (praticamente todos apresentando componentes portugueses importantes na formação) passaram a dominar o mercado. Os jovens comediógrafos brasileiros passaram a ser apreciados pelo público. E o teatro brasileiro começou a procurar sua identidade. Mas, vários atores e ensaiadores portugueses destacaram-se nesse período. Alguns deles são aqui lembrados.

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EDUARDO VICTORINO
- (1869-1949)

Na última década do século 19, já marcava presença na vida teatral carioca o dramaturgo, empresário e ensaiador português Eduardo Victorino. Pelo fato de ter sido um admirador de André Antoine, atribuem-se a ele pioneirismo na "remodelação da cena brasileira" (Galante de Sousa, O Teatro no Brasil ). Não se sabe exatamente em que sentido deu-se tal remodelação. O Compêndio da Arte de Representar, escrito por Victorino e publicado em 1912, demonstra que sua idéia de teatro estava ainda presa aos modelos antigos - aqueles que justamente o Naturalismo, iniciado por Antoine, combatia até a morte.

Por outro lado, o Compêndio de Victorino revelava-o um mestre, capaz de exposição didática e bastante clara dos complicados mecanismos que regiam a interpretação no século 19. Isso o tornou o principal instrumento didático  tanto da Escola Dramática Municipal, do Rio de Janeiro, dirigida por Coelho Neto, quanto do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, que mantinha curso de teatro, dirigido por Gomes Cardim.

Sua capacidade profissional foi sempre reconhecida. Mesmo pelo governo, que confiou a Eduardo Victorino vários empreendimentos oficiais, como a temporada dramática do Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1912, ou a direção da Comédia Brasileira, criada em 1922 para as comemorações do Centenário de Independência.


Eduardo Victorino, foto publicada no Anuário da Casa dos Artistas de 1939.

Eduardo Victorino, que escreveu cerca de uma dezena de peças teatrais, solicitou a seu amigo Eduardo Garrido uma peça sobre a Paixão de Cristo. Foi atendido e, durante pelo menos duas décadas, o Mártir do Calvário de Eduardo Garrido foi representada na Semana Santa por todas as companhias teatrais, mesmo as de revista e os circos e pavilhões. Mais recentemente, teve uma adaptação feita por Gabriel Vilella com o Grupo Galpão, de Belo Horizonte, com o nome mudado para Rua da Amargura.


Além da produção dramatúrgica e do Compêndio da Arte de Representar, Victorino escreveu livros, ensaios e matérias jornalísticas. Em Actores e Actrizes (1937), comenta criticamente uma série de personalidades do teatro, fossem de Portugal ou do Brasil. Nesses comentários constata-se o espírito agudo e interessado de Victorino. Ele procura realçar a capacidade técnica do ator, com pertinência e inteligência.

No Anuário da Casa dos Artistas de 1939, Eduardo Victorino publicou "O Problema do Teatro no Brasil" na verdade, o artigo é constituído de trechos da tese apresentada por Victorino no "Segundo Congresso das Academias de Letras e de Intelectuais". Evidencia, de todo o modo, o pesquisador. Fala com humor da eternamente anunciada morte do teatro, para entrar nos verdadeiros problemas do teatro brasileiro. E, com muita propriedade, cita a indigência dos equipamentos e o sistema de iluminação utilizado como principais empecilhos a ensaios sérios da encenação moderna no Brasil.

Já com 70 anos de idade, Eduardo Victorino não se acomodara: buscava meios para superar as deficiências da encenação e para alcançar expressão cênica moderna.

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ALEXANDRE DE AZEVEDO
- (1873-1954)

A temporada vitoriosa da companhia que formara com Adelina Abranches, animou Alexandre Azevedo a radicar-se no Rio de Janeiro, em 1913. Era, a essa altura, prestigiado como um dos principais atores portugueses. Estreara aos 19 anos, no Teatro da Rua dos Condes, Lisboa, obtendo elogios dos principais críticos e homens de teatro de Portugal.  Veio pela primeira vez ao Brasil com a companhia do Teatro Carlos Alberto, do Porto, aqui também recebendo aplausos do público e da imprensa. Voltou, ano seguinte, integrando o elenco do Teatro Dona Amélia, reafirmando seu prestígio artístico.

Em 1913 veio com companhia própria, associado à grande atriz Adelina Abranches. A temporada marcou a estréia de Aura, filha de Adelina, já como protagonista, com A Menina do Chocolate. Um sucesso tão inesperado quanto extraordinário - embora a companhia tivesse cerca de vinte peças prontas para irem à cena, a temporada inteira só deu para A Menina do Chocolate. Finda a excursão da Companhia, Alexandre decidiu ficar no Rio. Voltaria ainda uma vez a Lisboa para realizar um projeto que, em seguida, realizaria também no Brasil: o Teatro da Natureza. Em Lisboa, implantou-o no Jardim da Estrela: era um enorme teatro ao ar livre, com ambientação cenográfica de inspiração grega, onde foi levado um repertório que incluía Orestes, de Ésquilo, Édipo Rei, de Sófocles e outras tragédias gregas, entre alguns títulos portugueses. Continuava associado a Adelina Abranches e, nesta empresa, era sócio também o cenógrafo Augusto Pina. Foi um sucesso extraordinário. Lotações esgotadas em todas as apresentações, mas isso não se refletia na receita da bilheteria: Alexandre e Augusto, segundo Adelina, eram pródigos na distribuição de convites e havia uma invasão do espaço por pessoas que saltavam a cerca. Assim, com as despesas muito maiores do que a receita, o empreendimento durou apenas dois meses.

No Rio de Janeiro, em 1916, a despeito do sucesso alcançado, o Teatro da Natureza, teve vida ainda mais curta: faltou previsão, certamente, o fato é que a temporada teatral coincidia com a temporada das chuvas. Espetáculos eram cancelados a toda hora, em função da chuva.

Trazendo a experiência lisboeta, Alexandre Azevedo associou-se no Rio de Janeiro a João do Rio e Gomes Cardim. Conseguiram da Prefeitura espaço no Campo de Sant´Ana e lá foi instalado magnífico teatro ao ar livre, platéia comportando até dez mil pessoas (a maioria, de pé).


Alexandre de Azevedo.
Foto publicada no livro de Brício de Abreu Esses Populares Tão Desconhecidos (E. Raposo Carneiro - Editor, 1963).


O repertório constituído de tragédias gregas se alternava com textos portugueses, dentre os quais se destacou Mártir do Calvário, de Eduardo Garrido. Mas as atenções estavam voltadas para as tragédias gregas. E nelas, se consagrava uma atriz que iniciara carreira em São Paulo, nas jornadas Filodramáticas da colônia italiana, fora à Europa e agora se lançava profissionalmente: Itália Fausta.

Em seguida, organizou companhia no Teatro Recreio. Seguiram-se outras companhias, no Fenix, no São Pedro e no Trianon. Anos depois, Alexandre Azevedo voltou a Portugal, mas pouco tempo lá ficou. Era já um brasileiro. Voltou. E continuou aqui sua brilhante carreira até 1939, quando se despediu do palco e se retirou para a fazenda que comprou em Petrópolis, onde quinze anos depois faleceu.

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