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Minha Crítica

 


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Confira as Críticas enviadas:


Data: 04/03/2002

Nome: Paulo Fernando Góes

Ana Paula Arósio cumpre bem, apesar de sem louvor, a missão de interpretar o papel que fora de Tônia Carrero há 20 anos atrás, porém falta a personagem uma dimensão maior exigida pelo texto. Não vemos em cena as afetações e a eloqüência de Nora, tampouco seu magnífico crescimento que se dá durante todo o espetáculo.
O papel de Helmer, marido de Nora, é magistralmente interpretado por Marcos Winter, que dá o tom certo para todas as nuances do seu personagem. Floriano Peixoto parece ainda buscar a identidade do personagem e, apesar dos gritos, não convence, tampouco emociona na pele do advogado Krogstad. Michel Bercovitch e Silvia Buarque cumprem bem seus papéis e tão somente isso - sem maior notoriedade.

A direção de Aderbal Freire-Filho exagera na dança das cadeiras e, imperdoavelmente, tira de cena Anna-Maria, a babá. Ela tem um papel fundamental na decisão de Nora em abandonar o lar, pois ela sabe que a babá cuidará bem de seus filhos na sua ausência.

O cenário de José Manuel Castanheira é belíssimo e bastante funcional, a iluminação de Maneco Quinderé não diz para que veio e os figurinos de Rosa Magalhães são além de belos, muito fiéis a época e aos seus personagens.

O resultado final de "Casa de Boneca" é belo, vale a pena conferir. Além disso, é sempre prazeroso (re)ver Ibsen.

Paulo Fernando Góes
paulofernandogoes@globo.com
Rio de Janeiro - RJ


Data: 22/01/2002

Nome: Luiz Rogério Lucena

Como o teatro necessita de pessoas, idéias e pulsões, permito-me colaborar com um testemunho que mais vale pelo objeto vislumbrado do que pelo olho da testemunha. Na terça-feira (15 de Janeiro de 2002) tive a felicidade de poder assistir a um ensaio geral da peça Far Away (estréia marcada para 22 de Janeiro), texto inglês de Caryl Churchill traduzido para o francês por Marie-Helene Estienne, com direção de Peter Brook.
Segundo o processo de trabalho deste diretor, sempre chega o dia em que, estando elaborado o espetáculo, e realizado um ensaio com um público de estudantes para testar a comunicação com a platéia. Foi na aula da faculdade de teatro (Universidade Sorbonne Nouvelle; Paris 3)) que soube da oportunidade. O ensaio foi no teatro Bouffes du Nord, sede da companhia de Brook, um dos mais bonitos e  simpáticos de Paris. Ele fica incrustado num prédio antigo (como  tantos que há por aqui), num bairro de moradores oriundos, em sua maioria, de imigração magrebina (países do noroeste da África). Na fachada, entre uma loja e um café, há um letreiro acima de uma porta grande de madeira que indica sem pompa nem prestígio: THEATRE. Só saberá o nome do teatro quem ler uma placa fixada na parede onde esta informação acompanha um breve histórico do local (como tantas placas informativas em tantos prédios por aqui).
Fazemos alguns passos adentro - eu e um casal de amigos brasileiros que não pertencem a essa ficção corporativista chamada classe artística, os quais convidei no espírito de saborear em comunidade; e nos deparamos com o teatro de paredes internas vermelhas descascadas e um palco que parece avançar de encontro a platéia, disposta em semi-círculo em torno dele. Logo conhecemos mais duas brasileiras sentadas na fila de trás, ambas também estudantes de teatro na mesma universidade (como tantos brasileiros em tantas universidades por aqui), e a comunidade se amplia. 
No palco há três holofotes do gênero encontrado em estúdios fotográficos no fundo da cena. Em frente alguns objetos de um cotidiano sem mais histórias: uma mesa e dois banquinhos de madeira pintados de branco e dois cubos de madeira pintados de preto. Tudo disposto sobre um piso retangular de madeira escura. Entra Brook, simpático e objetivo lembra as regras básicas do encontro (desligar celulares e não tirar fotos), diz tratar-se da primeira experiência com público, deseja uma boa soiree; e dá lugar aos atores. Vestindo calça, camiseta e tênis e trazendo na mão uma toalha e uma escova de cabelo entra uma atriz. Ela desloca um banquinho, estende a toalha sobre ele, debruça-se e faz a mímica de lavar os cabelos. Uma criança vestindo um roupão entra no retângulo de madeira (o espaço da representação) e para no canto. Desta forma simples a história começa a ser contada. O ensaio mostrou uma peça composta de três cenas sem ligação aparente. Na primeira, uma criança que não consegue dormir vem questionar um adulto sobre as coisas que viu à noite: pessoas gritando dentro de um caminhão no jardim, outras sendo confinadas numa casinha e algumas sendo surradas por seu tio (inclusive uma criança). A mulher responde a todas as questões dissuadindo a má impressão e transformando o tio numa figura heróica. A menina vai enfim dormir, não sem antes prometer que no dia seguinte ajudará a limpar a sujeira na casinha. A segunda cena se passa numa chapelaria onde dois jovens (ele já um tanto experimentado na profissão, chapeleiro há 6 anos, e ela novata) criam suas obras para um concurso de chapéus. Discutem sobre as criações, falam sobre a iminente morte do metier e as dificuldades trabalhistas, enquanto o rapaz demonstra crescente interesse pela colega. Advém o concurso, e o vencedor tem sua sobrevivência (?) garantida em um museu de chapéus, enquanto os outros são destinados ao lixo. Dois membros de uma organização armada (guerrilheira ? terrorista ? revolucionaria ? independementista ?) iniciam a cena final conversando sobre missões, perigos e inimigos : os coreanos; os vendedores de carro, sobretudo os vendedores de carro portugueses; os jacarés (há controvérsias entretanto); as crianças com menos de quatro anos. Chega uma terceira pessoa, a companheira de um deles que atravessou a região somente para encontra-lo, tendo para tanto matado alguns bichos, pessoas de determinadas profissões e/ou nacionalidades e uma criança com menos de quatro anos. Discutem a possibilidade de algum pássaro tê-la visto e denuncia-la.
A narrativa temperada da violência, a tensão mortal como pano de fundo de conversas cotidianas, tudo foi colocado em cena com precisão, através de um trabalho de atores expressivamente concentrado em diálogos que prescindem de movimentos dispersivos ou excessivos. A fronteira conflituosa entre amor e morte está impressa na separação entre o banal cotidiano da cena (as pessoas
lavam os cabelos, criam chapéus, fazem discursos) e a violência que as personagens testemunham e/ou protagonizam fora dela. Uma fronteira desenhada com giz, em que basta um sopro de ar pra apaga-la. Uma linha de separação flutuante entre elementos contraditórios que estranhamente coexistem e até complementam-se nessas histórias.
A crueldade está na crueza das imagens que se formam apesar, por vezes, da leveza das relações e mesmo da comicidade um tanto ácida dos diálogos. De tão comum a convivência entre essas pessoas, a história ganha ares de dimensão épica invertida, do épico cotidiano em nada representativo da consagração do herói individual. Um relato da pessoa comum, do cidadão de qualquer lugar, um ser que ama, sem dúvida, e que também mata (ou é morto).
Para mim, que conhecia as idéias de Brook expostas nos seus livros - onde, mais do que uma defesa de tese, ele faz um testemunho acurado de sua vivência relacionada ao teatro (o teatro que ele faz e o teatro que ele vê os outros fazerem) -, a oportunidade de ver uma encenação sua traduzia-se num sentimento de dúvida curiosa : o que será todo esse pensamento em cena ? Eu imaginava que estariam lá suas concepções básicas, a saber, o palco vazio, a concentração da cena no jogo dos atores que funcionam como condutores do olhar e catapultadores da imaginação do público, a economia de artifícios cênicos visando a essencialidade que brota do texto. O que me baratinava era uma questão utilitária : elas funcionam ? O amigo que me acompanhava (o não pertencente ao meio) me disse, logo após a intervenção de Brook que sentia como se todo o público, por inclusão ele próprio, tivesse sido valorizado. Aproprio-me sem titubear da formulação, no decorrer do ensaio já estava tomado da mesma sensação. Via um teatro que valoriza a presença do público ao apresentar uma história onde a sensibilidade e a inteligência do público são cutucadas com vara curta pela inteligência, sensibilidade e inventividade dos artistas. Uma representação onde os olhos dos atores vislumbrando o vazio criam imagens que serão tão diferentes quanto numerosos forem os espectadores. Quando cheguei em casa, depois de ter deixado minha agenda com um batedor de carteiras no metrô (como muitos que há aqui), tive preguiça do ato semi-automático de ligar a televisão. Preguiça da inutilidade e da vulgaridade a que normalmente se reduzem as sensações. Em respeito a mim preferi o silêncio populoso. Um tio meu uma vez me disse, numa previsão pra lá de otimista, que nessa época tecnológica o teatro é a profissão do futuro, porque será o melhor lugar onde gente encontrará gente. Assistir ao ensaio de Peter Brook me valeu um fôlego de otimismo.

Luiz Rogério Lucena

luizlucen@hotmail.com

Paris, 18 de janeiro de 2002.


08/09/2000

Nome: Eduardo Viveiros

Cidade: São Paulo

Crítica:
Ao espetáculo "Contos de Sedução", com o grupo TAPA, estréia dia 07/09/00, Teatro Aliança Francesa - São Paulo.
Faltou sedução e sobrou sono na platéia. Acho que as atrizes, principalmente, ficaram devendo quanto à sedução. Os semitons (mais pra o escuro) do espetáculo, na luz (principalmente), em muitos momentos, induziam os espectadores ao sono. É preciso ter muito cuidado, também, com adaptação de textos literários. Em certos trechos do espetáculo, o que se ouvia era puro texto literário. Mesmo bem falado, a impressão que fica é a de uma leitura. Do diretor ou dos atores. Ler por ler, lemos em casa. A encenação tem a marca do talentoso Eduardo Tolentino, que trabalha com rigor e precisão. Mas algumas de suas soluções estão se repetindo, desde Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues...


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