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Tema desta Edição

Renato Vianna
Biografia
Campanhas Artísticas
A Última Encarnação do Fausto
Obras

 

O Teatro
Brasileiro
1918/38

Grandes Figuras
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Presença Portuguesa

 

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TEMA DESTA EDIÇÃO: Renato Vianna/A Última Encarnação do Fausto
 

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O Drama Simbolista de Um Processo Artístico

   

A Última Encarnação do Fausto em montagem atual, direção de Bernadeth Alves. {Foto: Humberto Matos)


Em notas para um memorial que pretendia fazer da sua carreira, Renato Vianna reportou-se aos acontecimentos do início da década de 20. Lembra a exoneração do cargo que ocupava na Casa da Moeda e a atribui a perseguições políticas que vinha sofrendo. Respondendo à hipotética pergunta sobre por que não lutou por seus direitos, diz que não tinha recursos para fazer face às despesas de uma reivindicação judiciária, mas acima de tudo, " ingressara resolutamente nas fileiras, então muito escassas, da mocidade revolucionária que havia de plantar, com seu sangue generoso, em 1922, o ideal de um Brasil mais justo, mais fecundo e mais belo".


Homem do seu tempo, Renato via nos acontecimentos marcantes de 22 - a Semana de Arte Moderna, a revolta do Forte Copacabana, a fundação do Partido Comunista do Brasil - sinais das grandes transformações em marcha. E queria que tais transformações atingissem o teatro. Tinha conhecimento das revoluções cênicas européias e pretendia introduzir os novos conceitos da encenação no palco brasileiro. Voltara à Fortaleza com a família e lá, num sobrado da Praça do Ferreira, escreveu
A Última Encarnação do Fausto.

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O Texto

Lançou mão do tema altamente representativo da modernidade para expor seus pontos de vista e sua crítica à sociedade de então. O novo Fausto é um escultor de sucesso, Eduardo, que de repente constata ser a sua obra uma mentira: falta alma à forma. Está consumido nas dúvidas quanto à validade ética e moral do que faz, quando é surpreendido por um homem que, vindo não se sabe de onde, surge no estúdio.

Ao revólver que o artista lhe aponta, o homem responde sacando de outro revólver. Antes de dizer quem é, tira do bolso um espelho e mostra-o ao artista que nele vê refletida a imagem de uma mulher.

Evidentemente Renato utiliza elementos importados da obra de Goethe, mas com importantes diferenças. O Fausto de Goethe emerge de um mundo caótico, de uma febril indagação e isolado do mundo, cercado de livros, não cuida da aparência. Já Eduardo tem vida social intensa e suas dúvidas morais resumem-se na busca da "perfeição" através da arte. Enquanto aquele vivia entre "alfarrábios, pergaminhos, retortas, traças e ratos", este vive em confortável habitação burguesa. O espelho da cozinha da Feiticeira, onde Fausto vê Margarida, transforma-se em espelhinho de bolso. Não mais o ambiente gótico e os objetos duráveis, mas o ambiente descaracterizado e os objetos descartáveis.

Também Mefisto mudou seus métodos e objetivos, como explica ao artista: Como toda a criação e toda a criatura, eu também evoluí! Antigamente eu colecionava almas, porque as almas eram o "bric-á-brac" de antigamente. Era moda. Como tal, passou... [...] Hoje, coleciono notas de banco e prefiro o dólar. O dinheiro é a magia moderna. Nessa linha de raciocínio, o que vem propor ao novo Fausto é um negócio como outro qualquer. Quando Eduardo diz: "Pede o meu sangue", Mefisto responde: "Não! Prefiro pedir-te um cheque". "De quanto?", indaga o artista. Mefisto faz um rápido orçamento e dá o preço: "Mil libras".

O Mefisto de Goethe leva Fausto a passeios, fazendo-o entrever as possibilidades do mundo em grandes transformações morais e econômicas; o de Renato serve-lhe apenas uma beberagem, fazendo-o afundar ainda mais nas suas fantasias. Adormecido por efeito da droga, Eduardo tem visões de mulheres envoltas em gaze, que surgem banhadas de luar e vêm beijá-lo. Vê, também, o Diabo, de gibão vermelho, que modela uma estátua, semelhante à que está inacabada no estúdio, porém viva.

O segundo ato inicia com Eduardo e Antônio espalhando pétalas de rosas pelo estúdio. É que o artista aguarda Ilda, a mulher que ama. Ela nada tem da Margarida, a heroína de Goethe. Não é moça pobre que, ao entregar-se por amor a Fausto, fica exposta ao ódio medievalesco da sua aldeia. Pelo contrário: é mulher da alta sociedade, cosmopolita e... casada. O pânico que a domina é de que o marido descubra sua infidelidade.

A trajetória inversa deste Fausto em relação ao "original" fica ainda mais clara no terceiro ato. O cenário ainda é o estúdio, mas "há um visível abandono das coisas". Livros por toda parte. No lugar da estátua, um esqueleto. Embora ainda de casaca, Eduardo está despenteado, com propensão ao desleixo. Mais um sinal da ruptura do artista com o mundo exterior: recusa-se a receber Ilda que, todavia, irrompe estúdio adentro. Não há mais o amor; da estátua viva resta apenas o esqueleto e tudo recende à morte. Horrorizada, Ilda ouve do criado que o artista mandou enterrar a estátua no jardim e toda manhã leva-lhe flores.

Depois, tentando reconduzir o patrão a Deus, Antônio reza com ele um Padre Nosso. Ele acalma-se e sai Antônio. Surge Mefisto, que apenas observa Eduardo. Este passeia pelo estúdio, como se numa despedida das coisas. Depois apanha o revólver. É quando Mefisto intervém para ouvir do artista que a morte é a conclusão definitiva a que chegou.


MEFISTO -- E neste momento, diante desse revólver, que te julgas?

EDUARDO -- Deus!

MEFISTO -- Tens a certeza? 

EDUARDO -- Maior ainda do que Deus!

MEFISTO -- Então, não precisas mais de mim... És perfeito. Está cumprido o nosso pacto... Boa viagem! (Mefisto encaminha-se para a vidraça, volta-se. Eduardo está profundamente imerso na sua atonia. Do alto, sombrio, Mefisto aguarda a última palavra, o último sopro de vida de Eduardo... E desata uma gargalhada infernal.)

 


Ilda (Mara Leal) a mulher sonhada de Eduardo/Fausto (Marcelo reis).
(Foto Humberto Matos)

EDUARDO -- De que te ris, Satanás?

MEFISTO (intenção diabólica) -- Do Padre Nosso!

EDUARDO (louco) -- Maldito sejas tu! (Atira em Mefisto. Grande fragor musical. Toda a luz. Mefisto envolve-se na capa, tapando o rosto - e foge.)

(Morte de Eduardo).

Não se pode negar certa originalidade no enfoque dado por Renato Vianna à velha lenda do dr. Fausto. E, em plenas águas simbolistas, fez do tema uma metáfora da ruptura em curso no processo artístico brasileiro.

Eduardo se expressa como um parnasiano.  Procura a Beleza, mas a Beleza por si mesma, desvinculada das realidades humanas. A intervenção de Mefisto é a dúvida que lhe começa a corroer o espírito quanto ao objetivo da sua arte em face da sua "finalidade humana". Arte e vida. Ambas se confundem e o artista, insatisfeito com as relações sociais que o aprisionam às aparências das coisas, começa a duvidar do valor moral da sua obra.

O Simbolismo não opera somente na estética visual -- o sonho de Eduardo, com mulheres envoltas em gaze e o Diabo esculpindo --, mas se entranha no nível conceitual com imagens como a do sepultamento da estátua. De fato, Eduardo é o artista cujos conceitos estéticos virtualmente morriam. O enterro da estátua é o sepultamento de uma visão de mundo; sua substituição  por um esqueleto pode ser o chamamento à reconstrução dos conceitos estéticos no sentido de melhor refletirem o novo homem. Eduardo, todas as manhãs, leva flores à sepultura -- as flores são também símbolos da glória efêmera do artista parnasiano, coroado pela retórica acadêmica nas colunas dos jornais. O esqueleto não deve ser entendido como o "fim", mas, simbolicamente, como um projeto, um vir-a-ser. O suicídio do artista não deve ser tomado ao pé da letra, pois morte implica renascimento -- neste caso, o renascimento artístico brasileiro. 

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