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TEMA DESTA
EDIÇÃO: Renato Vianna/A Última Encarnação do Fausto
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O
Drama Simbolista de Um Processo Artístico
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A Última Encarnação do
Fausto em montagem atual, direção de Bernadeth Alves. {Foto: Humberto
Matos)
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Em
notas para um memorial que pretendia fazer da sua carreira, Renato
Vianna reportou-se aos acontecimentos do início da década de 20.
Lembra a exoneração do cargo que ocupava na Casa da Moeda e a
atribui a perseguições políticas que vinha sofrendo. Respondendo à
hipotética pergunta sobre por que não lutou por seus direitos, diz
que não tinha recursos para fazer face às despesas de uma reivindicação
judiciária, mas acima de tudo, " ingressara resolutamente nas
fileiras, então muito escassas, da mocidade revolucionária que havia
de plantar, com seu sangue generoso, em 1922, o ideal de um Brasil
mais justo, mais fecundo e mais belo".
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Homem
do seu tempo, Renato via nos acontecimentos marcantes de 22 - a
Semana de Arte Moderna, a revolta do Forte Copacabana, a fundação do
Partido Comunista do Brasil - sinais das grandes transformações em
marcha. E queria que tais transformações atingissem o teatro. Tinha
conhecimento das revoluções cênicas européias e pretendia
introduzir os novos conceitos da encenação no palco brasileiro.
Voltara à Fortaleza com a família e lá, num sobrado da Praça do
Ferreira, escreveu A
Última Encarnação do Fausto.
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O Texto
Lançou
mão do tema altamente representativo da modernidade para expor seus
pontos de vista e sua crítica à sociedade de então. O novo Fausto
é um escultor de sucesso, Eduardo, que de repente constata ser a sua
obra uma mentira: falta alma à forma. Está consumido nas dúvidas
quanto à validade ética e moral do que faz, quando é surpreendido
por um homem que, vindo não se sabe de onde, surge no estúdio.
Ao
revólver que o artista lhe aponta, o homem responde sacando de outro
revólver. Antes de dizer quem é, tira do bolso um espelho e mostra-o
ao artista que nele vê refletida a imagem de uma mulher.
Evidentemente
Renato utiliza elementos importados da obra de Goethe, mas com
importantes diferenças. O Fausto de Goethe emerge de um mundo caótico,
de uma febril indagação e isolado do mundo, cercado de livros, não
cuida da aparência. Já Eduardo tem vida social intensa e suas dúvidas
morais resumem-se na busca da "perfeição" através da
arte. Enquanto aquele vivia entre "alfarrábios, pergaminhos,
retortas, traças e ratos", este vive em confortável habitação
burguesa. O espelho da cozinha da Feiticeira, onde Fausto vê
Margarida, transforma-se em espelhinho de bolso. Não mais o ambiente
gótico e os objetos duráveis, mas o ambiente descaracterizado e os
objetos descartáveis.
Também
Mefisto mudou seus métodos e objetivos, como explica ao artista: Como toda a criação e toda a criatura, eu também evoluí! Antigamente
eu colecionava almas, porque as almas eram o "bric-á-brac"
de antigamente. Era moda. Como tal, passou... [...] Hoje, coleciono
notas de banco e prefiro o dólar. O dinheiro é a magia moderna.
Nessa linha de raciocínio, o que vem propor ao novo Fausto é um negócio
como outro qualquer. Quando Eduardo diz: "Pede o meu
sangue", Mefisto responde: "Não! Prefiro pedir-te um
cheque". "De quanto?", indaga o artista. Mefisto faz um
rápido orçamento e dá o preço: "Mil libras".
O
Mefisto de Goethe leva Fausto a passeios, fazendo-o entrever as
possibilidades do mundo em grandes transformações morais e econômicas;
o de Renato serve-lhe apenas uma beberagem, fazendo-o afundar ainda
mais nas suas fantasias. Adormecido por efeito da droga, Eduardo tem
visões de mulheres envoltas em gaze, que surgem banhadas de luar e vêm
beijá-lo. Vê, também, o Diabo, de gibão vermelho, que modela uma
estátua, semelhante à que está inacabada no estúdio, porém viva.
O
segundo ato inicia com Eduardo e Antônio espalhando pétalas de rosas
pelo estúdio. É que o artista aguarda Ilda, a mulher que ama. Ela
nada tem da Margarida, a heroína de Goethe. Não é moça pobre que,
ao entregar-se por amor a Fausto, fica exposta ao ódio medievalesco
da sua aldeia. Pelo contrário: é mulher da alta sociedade,
cosmopolita e... casada. O pânico que a domina é de que o marido
descubra sua infidelidade.
A
trajetória inversa deste Fausto em relação ao "original"
fica ainda mais clara no terceiro ato. O cenário ainda é o estúdio,
mas "há um visível abandono das coisas". Livros por toda
parte. No lugar da estátua, um esqueleto. Embora ainda de casaca,
Eduardo está despenteado, com propensão ao desleixo. Mais um sinal
da ruptura do artista com o mundo exterior: recusa-se a receber Ilda
que, todavia, irrompe estúdio adentro. Não há mais o amor; da estátua
viva resta apenas o esqueleto e tudo recende à morte. Horrorizada,
Ilda ouve do criado que o artista mandou enterrar a estátua no jardim
e toda manhã leva-lhe flores.
Depois,
tentando reconduzir o patrão a Deus, Antônio reza com ele um Padre
Nosso. Ele acalma-se e sai Antônio. Surge Mefisto, que apenas
observa Eduardo. Este passeia pelo estúdio, como se numa despedida
das coisas. Depois apanha o revólver. É quando Mefisto intervém
para ouvir do artista que a morte é a conclusão definitiva a que
chegou.
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MEFISTO
-- E neste momento, diante desse revólver, que te julgas?
EDUARDO
-- Deus!
MEFISTO
-- Tens a certeza?
EDUARDO
-- Maior ainda do que Deus!
MEFISTO
-- Então, não precisas mais de mim... És perfeito. Está cumprido o
nosso pacto... Boa viagem! (Mefisto encaminha-se para a vidraça,
volta-se. Eduardo está profundamente imerso na sua atonia. Do alto,
sombrio, Mefisto aguarda a última palavra, o último sopro de vida de
Eduardo... E desata uma gargalhada infernal.)
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Ilda (Mara Leal) a
mulher sonhada de Eduardo/Fausto (Marcelo reis).
(Foto Humberto
Matos) |
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EDUARDO
-- De que te ris, Satanás?
MEFISTO
(intenção diabólica) -- Do Padre Nosso!
EDUARDO
(louco) -- Maldito sejas tu! (Atira em Mefisto. Grande fragor musical.
Toda a luz. Mefisto envolve-se na capa, tapando o rosto - e foge.)
(Morte
de Eduardo).
Não
se pode negar certa originalidade no enfoque dado por Renato Vianna à
velha lenda do dr. Fausto. E, em plenas águas simbolistas, fez do
tema uma metáfora da ruptura em curso no processo artístico
brasileiro.
Eduardo
se expressa como um parnasiano. Procura
a Beleza, mas a Beleza por si mesma, desvinculada das realidades
humanas. A intervenção de Mefisto é a dúvida que lhe começa a
corroer o espírito quanto ao objetivo da sua arte em face da sua
"finalidade humana". Arte e vida. Ambas se confundem e o
artista, insatisfeito com as relações sociais que o aprisionam às
aparências das coisas, começa a duvidar do valor moral da sua obra.
O
Simbolismo não opera somente na estética visual -- o sonho de
Eduardo, com mulheres envoltas em gaze e o Diabo esculpindo --, mas se
entranha no nível conceitual com imagens como a do sepultamento da
estátua. De fato, Eduardo é o artista cujos conceitos estéticos
virtualmente morriam. O
enterro da estátua é o sepultamento de uma visão de mundo; sua
substituição por um
esqueleto pode ser o chamamento à reconstrução dos conceitos estéticos
no sentido de melhor refletirem o novo
homem. Eduardo, todas as manhãs, leva flores à sepultura -- as
flores são também símbolos da glória efêmera do artista
parnasiano, coroado pela retórica acadêmica nas colunas dos jornais.
O esqueleto não deve ser entendido como o "fim", mas,
simbolicamente, como um projeto, um vir-a-ser.
O suicídio do artista não deve ser tomado ao pé da letra, pois
morte implica renascimento -- neste caso, o renascimento artístico
brasileiro.
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