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TEMA DESTA
EDIÇÃO: Renato Vianna/Campanhas Artísticas
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As
Muitas Estações de Um Gesto Pioneiro
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Desde a estréia
de Na Voragem, pela Companhia Dramática Nacional, Renato Vianna
foi considerado nos meios cultos da época figura de vanguarda. Os textos
seguintes, também montados e interpretados por Itália Fausta,
confirmavam a fama. E mais ainda a confirmavam as palestras que ele fazia
sobre o "novo teatro". Falava da necessidade de atualização cênica
pensando nas revoluções pelas quais passava a arte dramática na Europa.
Nos rastros
dessa preocupação e na crença de que o teatro deveria ser um
instrumento civilizador, extremamente vinculado ao seu momento histórico
e às questões sociais, criou a Cia. da Batalha da Quimera. Pretendia
participar das revoluções anunciadas em 1922 pela Semana de Arte
Moderna, pela revolta tenentista, marcada com o sacrifício dos 18 do
Forte de Copacabana, pela fundação do Partido Comunista do Brasil.
O fracasso da
audaciosa montagem de estréia da Companhia, que o levou à falência, não
diminuiu a crença em um novo teatro, mas lhe demonstrou a necessidade de
absoluta alteração não só dos códigos cênicos, também dos modos de
formação do profissional, de produção e de todo o sistema ético
vigente.
Preocupações
que configuraram as suas tentativas posteriores de modernização cênica.
Foram várias as campanhas -- a criação de companhias efêmeras, as
"missões dramáticas", a viabilização de um
"teatro-escola" e em todas elas o mesmo pensamento, a mesma
disposição de renovação dos processos e do estabelecimento de novas
ideologias. A bem da verdade, mudavam títulos e meios, mas permanecia a
idéia. A projeção nacional alcançada por seus empreendimentos teve,
sem dúvida, imensa influência no panorama e foi decisiva no sentido de
preparação do ambiente para o triunfo da modernização cênica do
teatro brasileiro nos anos 40.
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A
BATALHA DA QUIMERA
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Criada em 1922,
com o propósito da montagem de A Última Encarnação do Fausto.
Foi a primeira tentativa de Renato Vianna no sentido do "teatro de síntese",
com aplicação da luz e do som como valores dramáticos. A obra estreou
no Teatro São Pedro (atual João Caetano), Rio de Janeiro, a 16 de
dezembro de 1922, ficando apenas três dias em cartaz. As críticas foram
arrasadoras, deixando claro o desentendimento dos críticos quanto àquela
nova forma de teatro. Por outro lado, causou profunda impressão no meio
teatral e a experiência, por muitos anos, era citada como exemplo das
novas possibilidades cênicas.
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Postal do lançamento
da Batalha da Quimera. 1922. |
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COLMÉIA
Certo de que na
Capital paulista, palco da Semana de Arte Moderna, encontraria ambiente
mais favorável às idéias de renovação cênica, Renato desembarcou sua
bagagem na Paulicéia, em 1924, para fundar sua segunda companhia dramática,
a Colméia.
Estava enganado
quanto ao ambiente, pois conforme dizia António de Alcântara Machado, o
público paulista não ia ao teatro à procura do prazer estético, mas
por patriotismo: cada colônia ia ao teatro para ver companhias vindas de
sua terra de origem. Seu outro ( e mais grave ) equívoco foi
associar-se ao português Simões Coelho, que veio para o Brasil em
companhia de Leopoldo Fróes, de quem era grande amigo. E Renato Vianna
terminara de vencer formidável briga com Fróes, que se transformou no
maior escândalo do teatro brasileiro daqueles anos (v. Gigolô, em
Obras). Assim, por fidelidade ao amigo, Simões Coelho deu o golpe fatal,
que arruinaria a Colméia: rompeu o contrato com o teatro, que estava em
seu nome, abandonando a companhia ao desabrigo.
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Carmem Azevedo, que
se consagrou na Cia. de Leopoldo Fróes como protagonista de
"Gigolô", foi a principal figura da Colméia. Foto
publicada na revista FonFon de 27/09/1924. |
Não
faltou, contudo, o apoio da imprensa. Desde o início, os jornais abriram
generosos espaços para noticiar as idéias renovadoras da Colméia. Um
dos pontos destacados era a juventude do elenco, no qual apenas Carmen
Azevedo e Antônio Mello eram já profissionais, os demais estreavam.
Entre os estreantes estava Olga Navarro, que logo mais se tornaria um dos
principais nomes do teatro brasileiro. Em 10/11/1924 O Estado de S.
Paulo publicou extensa coluna sobre o programa de ação da
companhia, onde a questão do trabalho com atores de pouca ou nenhuma
experiência era assim justificada:
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Terá elenco
composto de pessoas de boa vontade, criando um meio próprio, donde a obra
de arte, que deve ser toda a representação teatral, saia joeirada de
todas as causas que não nobilitem autores, intérpretes e colaboradores
nos fins morais e materiais com que é organizada; [...] Tentará
eximir-se à prática de tudo o que seja repercussões de hábitos e vícios
inveterados no meio profissional; procurará que as representações sejam
a soma certa do trabalho de cada intérprete seu. Não fazendo atrair as
atenções da publicidade para qualquer nome de artista em especial, mas
para os nomes do elenco, pois, segundo a sua orientação, cada qual é
uma parcela do esforço inteligente para a realização do ideal comum, só
terá em mira defender a todo transe o conjunto da representação...
A única peça
apresentada pela Colméia na Capital paulista foi Abelha de Ouro,
de Armando Mook, que estreou a 5/12/1924, no Teatro São Paulo, ficando
apenas uma semana em cartaz. Transferida a Companhia para o Rio de
Janeiro, apresentou no Teatro Cassino a peça de Renato Vianna Gigolô,
de 17 a 22 de janeiro de 1925, encerrando suas atividades.
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CAVERNA
MÁGICA
No final de
1927, quando Álvaro Moreyra e sua esposa Eugênia inauguravam o Teatro de
Brinquedo no sub-solo de um dos blocos do Casino Beira-Mar, Renato Vianna,
associado ao jovem poeta Paschoal Carlos Magno e ao artista plástico
Roberto Rodrigues (irmão do futuro dramaturgo Nelson Rodrigues),
preparava o lançamento da sua terceira companhia, a Caverna Mágica, no
palco do mesmo Casino Beira-Mar.
Os jornais
falavam do empreendimento de Renato Vianna, destacando suposto repúdio ao
profissionalismo. Coisa que ele negava e esclarecia:
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Tem-se
confundido um pouco as minhas idéias a esse respeito. Eu não me bato
contra os profissionais do teatro, mas contra o teatro dos profissionais.
A arte é a mais alta, a mais digna, a mais nobre das profissões humanas.
Eu penso com a Caverna Mágica da mesma maneira que pensava com a Quimera:
Acho imprescindível o concurso dos profissionais. Sem profissionais só
restam "amadores". Não há mais penosa, mais demorada, mais difícil
iniciação profissional que a da arte do teatro. Entre nós, no rigoroso
sentido do termo, ainda não há um só "profissional". Nosso
teatro é, mais ou menos, um teatro de amadores.
(A Manhã,
Rio de Janeiro, 7/1/1928)
E sua pregação
por um teatro de arte, prosseguia:
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Continuam a
ser os mesmos os sentimentos que me animam na luta: dar tudo o que eu
possa dar pela iniciação, entre nós, de um teatro de arte, de um teatro
de cultura, de um teatro escola. [...] Acho que o Brasil pode realizar
depressa um grande teatro. Isso está dependendo apenas de um pouco, de um
mínimo de ideal por parte dos que se atirem à realização. Antes de
tudo o mais, precisamos educar o artista e impor-lhe uma longa disciplina.
A crítica está sendo chamada, de longo tempo, a colaborar nessa escola.
Precisamos definir as responsabilidades. Precisamos estudar, precisamos
aprender.
(O Globo,
Rio de Janeiro, 17/1/1928)
A Caverna Mágica
abriu sua temporada com Fim de Romance (encenada anos antes pela
Cia. de Abigail Maia e Oduvaldo Vianna em Buenos Aires, na primeira excursão
ao Exterior realizada por companhia brasileira de comédia, com o título Abat-jour)
a 17 de janeiro de 1928. O espetáculo foi elogiado, mas os críticos
estranhavam coisas como longas pausas e movimentos de luz. Não conseguiam
ver nisso renovação e sim "erros" da montagem.
Ensaiavam-se
outras peças para formar repertório, mas as coisas não andavam bem,
internamente, pois o elenco não conseguia aceitar as regras disciplinares
impostas por Renato. Duas semanas depois, desfazia-se a companhia. Era
mais uma tentativa fracassada, porém, mais uma afirmação rumo ao
"novo teatro".
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TEATRO
DE ARTE
Depois da Revolução
de 30, na qual se envolveu como jornalista e como secretário do Governo
Provisório do Ceará, a convite de Fernandes Távora, Renato voltou para
o Rio de Janeiro e teve um texto "A Última Conquista "
encenado por Procópio Ferreira e outro "O Amor Vencido
" por
Jayme Costa. Ambos, grandes sucessos. Neles, Renato pregava a necessidade
da renúncia abnegada e do perdão como valores importantes à nova fase
da vida nacional aberta pela Revolução.
O sucesso dos
espetáculos animou-o a criar nova companhia, o Teatro de Arte.
Continuavam as mesmas propostas de renovação e elenco formado por novos
atores, entre os quais se destacava Céo da Câmara, jovem senhora da
sociedade.
Estreou a 21 de
fevereiro de 1932, no Teatro João Caetano, com o melodrama simbolista de
Renato Vianna O Homem Silencioso dos Olhos de Vidro. Era um período
particularmente infeliz para o teatro, com o público arredio. E os
problemas da Companhia começaram logo depois da estréia, com o
afastamento de Céo da Câmara, que adoeceu. Um grande nome do teatro,
Dulcina de Moraes, veio socorrer Renato substituindo a atriz. A temporada
não foi bem e, apesar de uma subvenção da Prefeitura do Distrito
Federal, as produções não se pagavam. Mas os atores permaneceram solidários
a Renato, trabalhando mesmo sem receber. Para cumprir o contrato com a
Prefeitura, Itália Fausta socorreu também Renato aceitando participar de
nova montagem de Os Fantasmas
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