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Tema desta Edição

Renato Vianna
Biografia
Campanhas Artísticas
A Última Encarnação do Fausto
Obras

 

O Teatro
Brasileiro
1918/38

Grandes Figuras
Grupos
Revisteiros
Presença Portuguesa

 

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TEMA DESTA EDIÇÃO: Renato Vianna/Campanhas Artísticas
 

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As Muitas Estações de Um Gesto Pioneiro

   


Desde a estréia de Na Voragem, pela Companhia Dramática Nacional, Renato Vianna foi considerado nos meios cultos da época figura de vanguarda. Os textos seguintes, também montados e interpretados por Itália Fausta, confirmavam a fama. E mais ainda a confirmavam as palestras que ele fazia sobre o "novo teatro". Falava da necessidade de atualização cênica pensando nas revoluções pelas quais passava a arte dramática na Europa.

Nos rastros dessa preocupação e na crença de que o teatro deveria ser um instrumento civilizador, extremamente vinculado ao seu momento histórico e às questões sociais, criou a Cia. da Batalha da Quimera. Pretendia participar das revoluções anunciadas em 1922 pela Semana de Arte Moderna, pela revolta tenentista, marcada com o sacrifício dos 18 do Forte de Copacabana, pela fundação do Partido Comunista do Brasil.

O fracasso da audaciosa montagem de estréia da Companhia, que o levou à falência, não diminuiu a crença em um novo teatro, mas lhe demonstrou a necessidade de absoluta alteração não só dos códigos cênicos, também dos modos de formação do profissional, de produção e de todo o sistema ético vigente.

Preocupações que configuraram as suas tentativas posteriores de modernização cênica. Foram várias as campanhas -- a criação de companhias efêmeras, as "missões dramáticas", a viabilização de um "teatro-escola" e em todas elas o mesmo pensamento, a mesma disposição de renovação dos processos e do estabelecimento de novas ideologias. A bem da verdade, mudavam títulos e meios, mas permanecia a idéia. A projeção nacional alcançada por seus empreendimentos teve, sem dúvida, imensa influência no panorama e foi decisiva no sentido de preparação do ambiente para o triunfo da modernização cênica do teatro brasileiro nos anos 40.

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A BATALHA DA QUIMERA

Criada em 1922, com o propósito da montagem de A Última Encarnação do Fausto. Foi a primeira tentativa de Renato Vianna no sentido do "teatro de síntese", com aplicação da luz e do som como valores dramáticos. A obra estreou no Teatro São Pedro (atual João Caetano), Rio de Janeiro, a 16 de dezembro de 1922, ficando apenas três dias em cartaz. As críticas foram arrasadoras, deixando claro o desentendimento dos críticos quanto àquela nova forma de teatro. Por outro lado, causou profunda impressão no meio teatral e a experiência, por muitos anos, era citada como exemplo das novas possibilidades cênicas.


Postal do lançamento da Batalha da Quimera. 1922.

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COLMÉIA


Certo de que na Capital paulista, palco da Semana de Arte Moderna, encontraria ambiente mais favorável às idéias de renovação cênica, Renato desembarcou sua bagagem na Paulicéia, em 1924, para fundar sua segunda companhia dramática, a Colméia. 

Estava enganado quanto ao ambiente, pois conforme dizia António de Alcântara Machado, o público paulista não ia ao teatro à procura do prazer estético, mas por patriotismo: cada colônia ia ao teatro para ver companhias vindas de sua terra de origem. Seu outro ( e mais grave ) equívoco foi associar-se ao português Simões Coelho, que veio para o Brasil em companhia de Leopoldo Fróes, de quem era grande amigo. E Renato Vianna terminara de vencer formidável briga com Fróes, que se transformou no maior escândalo do teatro brasileiro daqueles anos (v. Gigolô, em Obras). Assim, por fidelidade ao amigo, Simões Coelho deu o golpe fatal, que arruinaria a Colméia: rompeu o contrato com o teatro, que estava em seu nome, abandonando a companhia ao desabrigo.


Carmem Azevedo, que se consagrou na Cia. de Leopoldo Fróes como protagonista de "Gigolô", foi a principal figura da Colméia. Foto publicada na revista FonFon de 27/09/1924.

Não faltou, contudo, o apoio da imprensa. Desde o início, os jornais abriram generosos espaços para noticiar as idéias renovadoras da Colméia. Um dos pontos destacados era a juventude do elenco, no qual apenas Carmen Azevedo e Antônio Mello eram já profissionais, os demais estreavam. Entre os estreantes estava Olga Navarro, que logo mais se tornaria um dos principais nomes do teatro brasileiro. Em 10/11/1924 O Estado de S. Paulo publicou extensa coluna sobre o programa de ação da companhia, onde a questão do trabalho com atores de pouca ou nenhuma experiência era assim justificada:


Terá elenco composto de pessoas de boa vontade, criando um meio próprio, donde a obra de arte, que deve ser toda a representação teatral, saia joeirada de todas as causas que não nobilitem autores, intérpretes e colaboradores nos fins morais e materiais com que é organizada; [...] Tentará eximir-se à prática de tudo o que seja repercussões de hábitos e vícios inveterados no meio profissional; procurará que as representações sejam a soma certa do trabalho de cada intérprete seu. Não fazendo atrair as atenções da publicidade para qualquer nome de artista em especial, mas para os nomes do elenco, pois, segundo a sua orientação, cada qual é uma parcela do esforço inteligente para a realização do ideal comum, só terá em mira defender a todo transe o conjunto da representação...

A única peça apresentada pela Colméia na Capital paulista foi Abelha de Ouro, de Armando Mook, que estreou a 5/12/1924, no Teatro São Paulo, ficando apenas uma semana em cartaz. Transferida a Companhia para o Rio de Janeiro, apresentou no Teatro Cassino a peça de Renato Vianna Gigolô, de 17 a 22 de janeiro de 1925, encerrando suas atividades.

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CAVERNA MÁGICA


No final de 1927, quando Álvaro Moreyra e sua esposa Eugênia inauguravam o Teatro de Brinquedo no sub-solo de um dos blocos do Casino Beira-Mar, Renato Vianna, associado ao jovem poeta Paschoal Carlos Magno e ao artista plástico Roberto Rodrigues (irmão do futuro dramaturgo Nelson Rodrigues), preparava o lançamento da sua terceira companhia, a Caverna Mágica, no palco do mesmo Casino Beira-Mar.

Os jornais falavam do empreendimento de Renato Vianna, destacando suposto repúdio ao profissionalismo. Coisa que ele negava e esclarecia:

Tem-se confundido um pouco as minhas idéias a esse respeito. Eu não me bato contra os profissionais do teatro, mas contra o teatro dos profissionais. A arte é a mais alta, a mais digna, a mais nobre das profissões humanas. Eu penso com a Caverna Mágica da mesma maneira que pensava com a Quimera: Acho imprescindível o concurso dos profissionais. Sem profissionais só restam "amadores". Não há mais penosa, mais demorada, mais difícil iniciação profissional que a da arte do teatro. Entre nós, no rigoroso sentido do termo, ainda não há um só "profissional". Nosso teatro é, mais ou menos, um teatro de amadores.

(A Manhã, Rio de Janeiro, 7/1/1928)

 

E sua pregação por um teatro de arte, prosseguia:


Continuam a ser os mesmos os sentimentos que me animam na luta: dar tudo o que eu possa dar pela iniciação, entre nós, de um teatro de arte, de um teatro de cultura, de um teatro escola. [...] Acho que o Brasil pode realizar depressa um grande teatro. Isso está dependendo apenas de um pouco, de um mínimo de ideal por parte dos que se atirem à realização. Antes de tudo o mais, precisamos educar o artista e impor-lhe uma longa disciplina. A crítica está sendo chamada, de longo tempo, a colaborar nessa escola. Precisamos definir as responsabilidades. Precisamos estudar, precisamos aprender.

(O Globo, Rio de Janeiro, 17/1/1928)

A Caverna Mágica abriu sua temporada com Fim de Romance (encenada anos antes pela Cia. de Abigail Maia e Oduvaldo Vianna em Buenos Aires, na primeira excursão ao Exterior realizada por companhia brasileira de comédia, com o título Abat-jour) a 17 de janeiro de 1928. O espetáculo foi elogiado, mas os críticos estranhavam coisas como longas pausas e movimentos de luz. Não conseguiam ver nisso renovação e sim "erros" da montagem.

Ensaiavam-se outras peças para formar repertório, mas as coisas não andavam bem, internamente, pois o elenco não conseguia aceitar as regras disciplinares impostas por Renato. Duas semanas depois, desfazia-se a companhia. Era mais uma tentativa fracassada, porém, mais uma afirmação rumo ao "novo teatro".

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TEATRO DE ARTE


Depois da Revolução de 30, na qual se envolveu como jornalista e como secretário do Governo Provisório do Ceará, a convite de Fernandes Távora, Renato voltou para o Rio de Janeiro e teve um texto "A Última Conquista " encenado por Procópio Ferreira e outro "O Amor Vencido " por Jayme Costa. Ambos, grandes sucessos. Neles, Renato pregava a necessidade da renúncia abnegada e do perdão como valores importantes à nova fase da vida nacional aberta pela Revolução. 

O sucesso dos espetáculos animou-o a criar nova companhia, o Teatro de Arte. Continuavam as mesmas propostas de renovação e elenco formado por novos atores, entre os quais se destacava Céo da Câmara, jovem senhora da sociedade.

Estreou a 21 de fevereiro de 1932, no Teatro João Caetano, com o melodrama simbolista de Renato Vianna O Homem Silencioso dos Olhos de Vidro. Era um período particularmente infeliz para o teatro, com o público arredio. E os problemas da Companhia começaram logo depois da estréia, com o afastamento de Céo da Câmara, que adoeceu. Um grande nome do teatro, Dulcina de Moraes, veio socorrer Renato substituindo a atriz. A temporada não foi bem e, apesar de uma subvenção da Prefeitura do Distrito Federal, as produções não se pagavam. Mas os atores permaneceram solidários a Renato, trabalhando mesmo sem receber. Para cumprir o contrato com a Prefeitura, Itália Fausta socorreu também Renato aceitando participar de nova montagem de Os Fantasmas .  

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