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Tema desta Edição

Renato Vianna
Biografia
Campanhas Artísticas
A Última Encarnação do Fausto
Obras

 

O Teatro
Brasileiro
1918/38

Grandes Figuras
Grupos
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TEMA DESTA EDIÇÃO: Renato Vianna/Biografia
 
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Um Guerreiro e Sua Quimera

 


Ao assumir o governo provisório do Estado do Ceará, em 1930, Fernandes Távora nomeou Renato Vianna secretário de governo. Mas a proximidade do Poder não diminuiu a rebeldia do dramaturgo. Quando Fernandes Távora reabriu a Câmara dos Deputados, fechada pelo movimento revolucionário, Renato pediu exoneração, pois não concordava com o ato. Afinal, foi pela moralização da vida pública que se fez a Revolução e aqueles deputados foram eleitos de maneira notoriamente corrupta. A pedido do sogro, voltou atrás da decisão, sob o argumento de que seu pedido de exoneração, quando o movimento revolucionário tentava ainda tirar Washington Luis da presidência da República, poderia enfraquecer e desacreditar a Revolução. Mas, logo após a queda de Washington Luis e a ocupação do Catete por Getúlio Vargas, Renato abandonou o cargo de secretário para fundar o jornal Pátria Nova, onde não poupava críticas ao governo de Fernandes Távora nem elogios à Revolução. O jornal foi um grande sucesso, mas Renato acabou por abandonar a direção do mesmo, atendendo ao sogro, que novamente lhe solicitava menos rigor nas críticas ao governo. 


Voltando ao Rio de Janeiro, teve encenadas as suas peças A Última Conquista, por Procópio Ferreira, e Divino Perfume, pela Companhia Jayme Costa. Seu prestígio enquanto dramaturgo animava-o a nova tentativa no campo da encenação, fundando desta vez o Teatro de Arte, que teve o mesmo destino das empresas anteriores. Em conseqüência da nova derrocada, outra temporada em Fortaleza. Mas, desta vez, Renato trabalhou com afinco um novo projeto: Teatro-Escola.


Procópio e Renato Vianna


Pretendia instalar o Teatro-Escola, companhia estável e também escola dramática, no Teatro José de Alencar. Mas, as dificuldades do projeto, que se pretendia de alcance nacional, eram muito grandes em Fortaleza, tão distante do centro do Poder. Assim, retorna ao Rio de Janeiro firmemente decidido a buscar apoio para a criação do Teatro-Escola. Depois de um ano de batalhas, conseguiu o apoio oficial do Estado - oferecido pessoalmente por Getúlio Vargas --, o que tornava o Teatro-Escola uma "experiência oficial".


Renato Vianna como Dr. Calasans, em Sexo.


O elenco contava com três dos principais nomes do teatro da época - Itália Fausta, Jayme Costa e Olga Navarro --, profissionais de grande prestígio, como Cândido Nazareth e sua filha Luisa Nazareth, e alguns atores de pouca ou nenhuma experiência, como Rodolfo Meyer e as filhas de Luisa, Lourdes (mais tarde Lourdes Meyer) e Zilca (mais tarde Zilca Sallysbury). Elenco composto por profissionais veteranos, emergentes ou absolutamente desconhecidos, impunha respeito. 


A peça escolhida para a estréia doTeatro-Escola, em 1934, causou de imediato grandes polêmicas. Sexo, supostamente escrita por um médico muito conhecido, mas que se ocultava sob pseudônimo dr. Calasans, todos sabiam ser obra de Renato Vianna. Houve passeatas de protesto contra a peça, que seria ofensiva à família, e até protestos no Congresso Nacional, cobrando do presidente da República justificativas para o fato de estar subvencionando peça ofensiva à família, à moral e aos bons costumes. Sabe-se que o presidente foi ao teatro ver o espetáculo. Sua resposta aos ataques veio alguns dias depois, quando a primeira-dama, Dona Darcy Vargas, e sua filha foram ao teatro ver Sexo.


Todo o repertório apresentado na primeira temporada do Teatro-Escola obteve expressivo êxito de público e de crítica. Alguns achavam estranho aqueles espetáculos em que se apagavam as luzes em áreas do palco para ressaltar outras, com os grandes silêncios, as grandes pausas em cena. Mas todos deixavam-se envolver pela beleza do conjunto e pelo primor dos intérpretes. 


É que, embora ainda não se conhecesse o conceito no Brasil, Renato surgia como nosso primeiro encenador, diretor de teatro no sentido moderno do ofício, que dá unidade de pensamento ao espetáculo, onde as coisas são interdependentes e em permanente interação.

Estranhava-se também o rígido sistema disciplinar instaurado pelo diretor, que não permitia conversas paralelas durante os ensaios, nem atrasos de atores e técnicos, nem falta de respeito aos colegas; obrigava a todos permanecerem atentos ao trabalho, em silêncio, mesmo quem não participasse da cena. Coisas completamente estranhas no teatro vigente, onde a indisciplina era quase que a regra e o estudo do texto nenhum.


Renato Vianna em Deus.


Talvez isso tudo tenha contribuído para a revolta das principais figuras do elenco ( Itália Fausta, Jayme Costa, Olga Navarro ) que, alegando não ter Renato dividido supostos lucros do Teatro-Escola com o elenco, como era do estatuto da empresa, abriram processos contra ele e uma grande campanha difamatória.


Maria Caetana.


A segunda temporada do Teatro-Escola, já minado pelos processos judiciais e pela campanha difamatória ao seu diretor, foi aberta pela peça Deus, que provocou grandes manifestações de protesto, agora de estudantes, na Av. Rio Branco, junto do Teatro Municipal, que abrigava a companhia.


O cerco foi tão cerrado que obrigou o cancelamento da temporada e a transferência do Teatro-Escola para São Paulo. Na capital paulista, Renato e seu elenco receberam todo tipo de homenagens. O jovem Paulo Emílio Salles Gomes preparava muitas dessas homenagens a Renato, que Paulo Emílio chamava de "modernista". Um abaixo-assinado de artistas e intelectuais paulistas - entre eles Paulo Emílio e Flávio de Carvalho
- foi enviado ao ministro Capanema e ao presidente da República, em desagravo a Renato pela campanha difamatória de que era vítima no Rio.


De volta à Capital Federal, o Teatro-Escola fez outra temporada no Teatro João Caetano, para cumprir o contrato com o governo. As perícias realizadas nos livros do Teatro-Escola, finalmente, atestavam a lisura do diretor na administração da empresa. Mas, esse parecer técnico capaz de por fim às discussões, chegou tarde. O Teatro-Escola terminara sua existência. Três anos depois, ao ser instituído o Serviço Nacional de Teatro, o ministro Capanema, em artigo para um caderno de publicidade do Ministério, dá o crédito ao Teatro-Escola como primeira experiência oficial do governo, no sentido de criar órgãos de apoio ao desenvolvimento do teatro brasileiro.



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