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TEMA DESTA
EDIÇÃO:
Renato Vianna/Biografia
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Um
Guerreiro e Sua Quimera
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Ao assumir o governo provisório do Estado do Ceará, em 1930,
Fernandes Távora nomeou Renato Vianna secretário de governo. Mas a
proximidade do Poder não diminuiu a rebeldia do dramaturgo. Quando
Fernandes Távora reabriu a Câmara dos Deputados, fechada pelo
movimento revolucionário, Renato pediu exoneração, pois não
concordava com o ato. Afinal, foi pela moralização da vida pública
que se fez a Revolução e aqueles deputados foram eleitos de maneira
notoriamente corrupta. A pedido do sogro, voltou atrás da decisão,
sob o argumento de que seu pedido de exoneração, quando o movimento
revolucionário tentava ainda tirar Washington Luis da presidência da
República, poderia enfraquecer e desacreditar a Revolução. Mas,
logo após a queda de Washington Luis e a ocupação do Catete por
Getúlio Vargas, Renato abandonou o cargo de secretário para fundar o
jornal Pátria
Nova, onde não poupava críticas ao governo de Fernandes Távora nem
elogios à Revolução. O jornal foi um grande sucesso, mas Renato
acabou por abandonar a direção do mesmo, atendendo ao sogro, que
novamente lhe solicitava menos rigor nas críticas ao governo.
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Voltando ao Rio
de Janeiro, teve encenadas as suas peças A Última Conquista, por
Procópio Ferreira, e Divino Perfume, pela Companhia Jayme Costa.
Seu prestígio enquanto dramaturgo animava-o a nova tentativa no campo da
encenação, fundando desta vez o Teatro de Arte, que teve o mesmo destino
das empresas anteriores. Em conseqüência da nova derrocada, outra
temporada em Fortaleza. Mas, desta vez, Renato trabalhou com afinco um
novo projeto: Teatro-Escola.
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Procópio
e Renato Vianna
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Pretendia
instalar o Teatro-Escola, companhia estável e também escola dramática,
no Teatro José de Alencar. Mas, as dificuldades do projeto, que se
pretendia de alcance nacional, eram muito grandes em Fortaleza, tão
distante do centro do Poder. Assim, retorna ao Rio de Janeiro firmemente
decidido a buscar apoio para a criação do Teatro-Escola. Depois de um
ano de batalhas, conseguiu o apoio oficial do Estado - oferecido
pessoalmente por Getúlio Vargas --, o que tornava o Teatro-Escola uma
"experiência oficial".
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Renato Vianna como Dr.
Calasans, em Sexo. |
O
elenco contava com três dos principais nomes do teatro da época - Itália
Fausta, Jayme Costa e Olga Navarro --, profissionais de grande prestígio,
como Cândido Nazareth e sua filha Luisa Nazareth, e alguns atores de
pouca ou nenhuma experiência, como Rodolfo Meyer e as filhas de Luisa,
Lourdes (mais tarde Lourdes Meyer) e Zilca (mais tarde Zilca Sallysbury).
Elenco composto por profissionais veteranos, emergentes ou absolutamente
desconhecidos, impunha respeito.
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A peça
escolhida para a estréia doTeatro-Escola, em 1934, causou de imediato
grandes polêmicas. Sexo, supostamente escrita por um médico muito
conhecido, mas que se ocultava sob pseudônimo dr. Calasans, todos sabiam
ser obra de Renato Vianna. Houve passeatas de protesto contra a peça, que
seria ofensiva à família, e até protestos no Congresso Nacional,
cobrando do presidente da República justificativas para o fato de estar
subvencionando peça ofensiva à família, à moral e aos bons costumes.
Sabe-se que o presidente foi ao teatro ver o espetáculo. Sua resposta aos
ataques veio alguns dias depois, quando a primeira-dama, Dona Darcy
Vargas, e sua filha foram ao teatro ver Sexo.
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Todo o repertório
apresentado na primeira temporada do Teatro-Escola obteve expressivo êxito
de público e de crítica. Alguns achavam estranho aqueles espetáculos em
que se apagavam as luzes em áreas do palco para ressaltar outras, com os
grandes silêncios, as grandes pausas em cena. Mas todos deixavam-se
envolver pela beleza do conjunto e pelo primor dos intérpretes.
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É que,
embora ainda não se conhecesse o conceito no Brasil, Renato surgia como
nosso primeiro encenador, diretor de teatro no sentido moderno do ofício,
que dá unidade de pensamento ao espetáculo, onde as coisas são
interdependentes e em permanente interação.
Estranhava-se
também o rígido sistema disciplinar instaurado pelo diretor, que não
permitia conversas paralelas durante os ensaios, nem atrasos de atores e técnicos,
nem falta de respeito aos colegas; obrigava a todos permanecerem atentos
ao trabalho, em silêncio, mesmo quem não participasse da cena. Coisas
completamente estranhas no teatro vigente, onde a indisciplina era quase
que a regra e o estudo do texto nenhum.
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Renato
Vianna em Deus.
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Talvez isso tudo
tenha contribuído para a revolta das principais figuras do elenco ( Itália
Fausta, Jayme Costa, Olga Navarro ) que, alegando não ter Renato
dividido supostos lucros do Teatro-Escola com o elenco, como era do
estatuto da empresa, abriram processos contra ele e uma grande campanha
difamatória.
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Maria
Caetana. |
A segunda
temporada do Teatro-Escola, já minado pelos processos judiciais e pela
campanha difamatória ao seu diretor, foi aberta pela peça Deus,
que provocou grandes manifestações de protesto, agora de estudantes, na
Av. Rio Branco, junto do Teatro Municipal, que abrigava a companhia.
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O cerco foi tão
cerrado que obrigou o cancelamento da temporada e a transferência do
Teatro-Escola para São Paulo. Na capital paulista, Renato e seu elenco
receberam todo tipo de homenagens. O jovem Paulo Emílio Salles Gomes
preparava muitas dessas homenagens a Renato, que Paulo Emílio chamava de
"modernista". Um abaixo-assinado de artistas e intelectuais
paulistas - entre eles Paulo Emílio e Flávio de Carvalho - foi
enviado ao ministro Capanema e ao presidente da República, em desagravo a
Renato pela campanha difamatória de que era vítima no Rio.
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De volta à
Capital Federal, o Teatro-Escola fez outra temporada no Teatro João
Caetano, para cumprir o contrato com o governo. As perícias realizadas
nos livros do Teatro-Escola, finalmente, atestavam a lisura do diretor na
administração da empresa. Mas, esse parecer técnico capaz de por fim às
discussões, chegou tarde. O Teatro-Escola terminara sua existência. Três
anos depois, ao ser instituído o Serviço Nacional de Teatro, o ministro
Capanema, em artigo para um caderno de publicidade do Ministério, dá o
crédito ao Teatro-Escola como primeira experiência oficial do governo,
no sentido de criar órgãos de apoio ao desenvolvimento do teatro
brasileiro.
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